Portões Violados

Histórias em Português

Engenhosidade Gruul

Os Izzet sempre tinham os melhores feitiços.

Só porque Kal nascera nos Gruul não significava que ele não pudesse apreciar uma conjuração engenhosa. Ele observava os Izzet por horas, vendo como moviam o mana por múltiplos caminhos, encadeando arcos de energia em uma dança caótica. Nem sempre funcionava — eram os Izzet, afinal — e seus fracassos eram frequentemente mais espetaculares que seus sucessos, o que forçava Kal a abafar risadas ou arquejos de espanto. Seu trabalho era observá-los, e ele precisava permanecer escondido. Mas ele aprendia algo observando os Izzet. Ele levava ideias radicais para seu mentor, mas seu entusiasmo não era muito apreciado. Tais métodos não pertenciam às tradições xamânicas dos Gruul.

Mas Kal não se deixaria dissuadir. Ele sabia que havia um método naquela loucura.

Inspiração | Arte de Izzy
Inspiração | Arte de Izzy

Toda manhã, Kal caminhava pelo Cinturão de Escombros para escalar o pináculo arruinado de uma catedral Orzhov há muito abandonada, para poder observar a zona industrial Izzet recentemente adquirida. Aparelhos estranhos, canos fumegantes e buracos inexplicáveis estavam por toda parte. Kal não tinha ideia do que eles estavam pesquisando, mas achava fascinante. Ele observava os quimistas e magos de guilda Izzet invocarem enormes anômalos hipervoltaicos para perfurar buracos e alimentar máquinas. Ocasionalmente, Kal ouvia um estouro alto vindo de um dos inúmeros assistentes goblins que se aventuravam perto demais dos enormes anômalos e eram instantaneamente cozidos nos poderosos campos de mana da criatura. Isso frequentemente iniciava um jogo espontâneo entre os goblins de "empurre e estoura" — que não era aprovado pelos quimistas.

Kal fora enviado para observar os Izzet por sua líder de clã, Nikya dos Velhos Costumes, para garantir que os Izzet não avançassem para o território Zhur-Taa ou, pior, perturbassem os deuses que seu clã acreditava estarem adormecidos sob Ravnica. Embora Kal fosse um xamã, todos os Gruul eram criados como caçadores, então sua habilidade de se mover silenciosamente e espreitar presas muito mais atentas que os Izzet tornava essa tarefa fácil.

Mas Kal também mostrava sinais de ter uma sensibilidade à magia que poucos xamãs Gruul entendiam. Ele podia sentir a estranha magia dos Izzet; sua energia frenética, crepitante e imprevisível era algo que Kal sentia como se estivesse imerso nela. Ele gostava da excitação e incerteza presente em cada feitiço Izzet e sentava-se na sacada coberta de videiras, observando silenciosamente o trabalho maníaco dos magos Izzet, vendo a maneira como moviam o mana. O jovem xamã absorvia tudo isso até tarde da noite, em meio ao zumbido profundo das bobinas de mana Izzet.

"Houve um massacre."

Durri, uma jovem batedora dos Zhur-Taa, sentou-se com Kal sobre um muro em ruínas que dava para um poço de água sufocado por ervas daninhas. Ela tirava pedaços de carne de um galo-silvestre que capturara e cozinhara mais cedo e falava com Kal entre bocadas.

"Foi aquele acampamento Selesnyano que foi atacado. Ouvi dizer que havia sangue por toda parte. Selesnyanos burros. Bem-vindos ao Cinturão de Escombros." Durri jogou um osso por cima do ombro e enfiou outra bocada na boca. Então, como se lembrasse, ofereceu a carcaça a Kal, ergueu as sobrancelhas e assentiu. Kal recusou.

"O acampamento dos curandeiros? Eles estão bem?" Kal sabia que alguns dos Zhur-Taa utilizavam o acampamento de curandeiros Selesnyano no Cinturão de Escombros, mas algo acontecera para fazer Nikya desconfiar deles.

"Acho que a maioria está morta. Ogreth disse que foram os Rakdos. Ele me disse que Nikya parecia tão brava que poderia esmagar pedras com os dentes." Durri sorriu para Kal com um brilho de fogo nos olhos. "Vai ser guerra."

Kal olhou para o poço, processando a fala picotada e obstruída de Durri. Ele jogou um seixo do muro na água e assustou um sapo. "Você já esteve em uma guerra?"

Durri limpou o nariz com as costas da mão tatuada, depois coçou o cabelo escuro pensativamente. "Guerra de verdade, não. Estive em algumas incursões. Destruí algumas coisas. Acertei algumas... coisas... Golgari, seja lá o que forem. Sempre me perguntei como seria, no entanto. Ouvi as histórias."

"É, eu também." Kal imaginou-se lançando uma bola de fogo no meio de alguns capangas Rakdos, o que apenas o fez querer praticar magia ainda mais. Ele queria se provar. Todos os Gruul queriam se provar.

Arte de Chippy
Arte de Chippy

Kal ainda estava tirando os carrapichos de um dromade mal-humorado quando o grupo de guerra retornou. Ele podia sentir a tensão enquanto subiam pela estrada arruinada.

Nikya chamou: "Zhur-Taa, reunir!" Ela desmontou de sua fera e subiu os blocos de pedra do Monte da Fala. Nikya parecia sombria ao sentar-se de pernas cruzadas.

Um calafrio percorreu Kal ao sentir uma mudança em seu clã. Ele percebeu que algo grande estava prestes a acontecer. Kal subiu no topo de uma pequena rocha e observou seus companheiros de clã se unindo, uma onda de murmúrios percorrendo os guerreiros.

Quando todos estavam reunidos abaixo dela, Nikya falou. "Sangue foi derramado. Inocentes foram massacrados. Nosso território profanado. Sob nossas leis, temos o direito de declarar crime de sangue e buscar vingança contra os Rakdos."

Ao ouvir essas palavras, o clã rugiu em aprovação. Muito sofrimento fora causado pelos Rakdos no Cinturão de Escombros e até na Utvara. Os assassinos por diversão e gangues de morte saciavam sua sede de sangue nas zonas sem lei de Ravnica, longe dos olhos dos Azorius e Boros — áreas que os Gruul reivindicavam como suas.

Nikya ergueu seu cajado e os gritos cessaram. "Os Rakdos são poucos em número, mas são liderados por um monstro que vaga pelo Cinturão em busca de presas fáceis como os Selesnyanos. Devemos pegá-los antes que voltem para seu ninho de demônios. Devemos reivindicar nossa vingança."

Os Zhur-Taa vibraram, erguendo suas armas e mantendo-as no ar, aguardando sua líder de clã. Nikya desceu do Monte da Fala, movendo-se como um dos grandes maakas que rondavam o Cinturão, e começou a tocar as armas erguidas — escolhendo seu grupo de guerra, como os líderes de clã faziam há milhares de anos. Kal viu Durri ajoelhar-se em honra quando Nikya tocou sua espada erguida e esperou poder lutar ao lado dela. Pareceu uma eternidade até que Nikya passasse perto da rocha onde Kal se ajoelhava, mas, apesar de todo o seu desejo, a mão dela nunca tocou sua arma estendida.

"Preparem-se, Zhur-Taa", comandou Nikya. "Partimos agora, a pé. Vamos caçar alguns Rakdos!"

Arte de Dave Kendall
Arte de Dave Kendall

Kal rastreou o grupo de guerra à distância. Ele conhecia bem o Cinturão de Escombros, mas acompanhar os guerreiros Zhur-Taa sem ser detectado exigia tanto de sua habilidade quanto de sua coragem — se fosse descoberto, poderia significar banimento ou morte. Mas toda vez que Kal pensava em voltar, imaginava Durri investindo contra uma horda de espancadores Rakdos e isso o fazia seguir em frente. Ele não podia abandonar sua amiga.

Kal manteve distância e não conseguia ver seu clã, mas sabia que estavam perto. Os Zhur-Taa moviam-se silenciosamente e haviam deixado suas feras maciças para trás a fim de emboscar os Rakdos, que eram geralmente barulhentos, desorganizados e distraídos.

Enquanto escalava apressadamente uma pedra para contornar uma pilha enorme de um edifício, deparou-se com a ponta de uma lança nivelada em sua cabeça.

"Krokt!" Um guerreiro chamado Janik sibilou para Kal. "Eu quase te espetei. O que você está fazendo aqui?" Janik o agarrou como um torno. "Nikya vai te colocar em um espeto, garoto. Você quebrou as—"

Um grito ressoou, seguido pelo rugido dos guerreiros Gruul. Janik praguejou e soltou Kal enquanto uma explosão de fogo iluminava o crepúsculo e silhuetava as torres próximas de escombros.

"Lido com você mais tarde", disse Janik. Ele empurrou Kal no chão e correu em direção à luta. Os urros dos ogros Rakdos enchiam o ar, junto com gritos de guerra Gruul e uivos de dor.

Arte de Aleksi Briclot
Arte de Aleksi Briclot

Kal correu atrás de Janik, saltando sobre vigas caídas e abaixando-se sob alvenaria colapsada enquanto abria caminho pelas ruas arruinadas. Uma labareda de fogo passou sobre sua cabeça e atingiu um diabrete tagarela a alguns metros de distância. Ele gritou e gargalhou loucamente enquanto se contorcia no chão.

Ele pôde então ver toda a briga.

Nikya estava em pé, entoando cânticos, sobre uma pilha de rochas. Uma enorme parede de videiras enredava um ogro Rakdos maciço, que rugia de raiva e a rasgava como uma fera frenética.

Havia Rakdos por toda parte, saindo das frestas e buracos dos escombros como formigas, e a cabeça de Kal girava freneticamente enquanto procurava por Durri. Seu clã parecia estar em vantagem. Guerreiros Gruul entoavam canções antigas de guerra enquanto esmagavam diabretes tagarelas e bizarros de retalhos em pilhas esfarrapadas.

Kal viu um flash de um prédio abandonado e avistou o vulto de uma bruxa de sangue. Ele ouvira boatos sobre os escolhidos de Rakdos, magos que detinham todo o poder de Rix Maadi em suas mãos. Kal não tinha ideia do porquê uma bruxa de sangue estaria ali, mas sabia que era mais do que Nikya previra. Ouviu gritos próximos enquanto um punhado de goblins brilhava com uma luz vermelha e então desmoronava em uma bola repugnante, como se esmagados por uma mão invisível. Então ele pôde sentir — o cheiro fétido, semelhante a especiarias, de demônios.

"Demônios!", ouviu um dos Zhur-Taa gritar enquanto garras maciças e úmidas irrompiam da terra. Pedra e sujeira foram empurradas com uma ânsia profana enquanto os demônios lisos, semelhantes a morcegos, surgiam com um rugido ensurdecedor e uma onda de fedor avassalador.

"Zhur-Taa! A mim!", gritou Nikya, espiando por cima das asas estrondosas dos demônios. Guerreiros Gruul começaram a aparecer em meio à penumbra e à fumaça, abrindo caminho de volta através dos Rakdos. Kal procurou por Durri enquanto corria para sua líder, mas algo o agarrou pelo tornozelo e o enviou ao chão. Um corte abriu sua perna e ele comeu um bocado de terra. Um mangualista o havia enganchado. A corrente de garra afundou fundo em sua coxa e ele sentiu-se arrastado em direção ao ogro mascarado.

Ele lutou, mas não conseguia pensar direito. Cada puxão na corrente enviava uma descarga de dor pelo seu corpo.

"Kal!" A voz de Durri chamou seu nome de algum lugar.

"Kal!" O mangualista zombou, puxando-o para mais perto.

A mente de Kal corria. Havia Rakdos demais. Demônios demais.

Um estalo de percepção ocorreu a Kal. As horas observando os Izzet empunhando magia. A maneira como permitiam que a eletricidade se dispersasse e arqueasse. Ele podia sentir a raiva e o desespero queimando dentro dele como um fogo. Como os relâmpagos Izzet.

Fogo e relâmpago eram semelhantes.

Ambos eram brutos e caóticos.

E se...

Arte de Daarken
Arte de Daarken

Uma explosão de fogo incinerou o mangualista sorridente. Seus braços e pernas voaram para longe, deixando rastros espiralados de fumaça no ar. Mas aquele não foi o fim. Arcos de energia voaram de Kal e atingiram os demônios como um martelo flamejante que os transformou em plumas de fogo gritantes. O fogo dos demônios então transbordou e raios de chama chamuscaram a terra, reduzindo o restante dos Rakdos a osso e cinza em um flash ofuscante.

Quando acordou, Kal estava olhando nos olhos de aço de Nikya. "Nós pegamos ela?", Kal crocitou.

"Aquela que chamam de Garota do Massacre", disse Nikya com um rosnado. "Nenhum sinal do cadáver da infeliz. Mas você pegou uma destas com aquele seu feitiço." Nikya ergueu a cabeça carbonizada da bruxa de sangue. "Um bom prêmio."

Nikya inclinou-se mais perto. "Eu empunho a magia dos Gruul há mais tempo do que você vive, Kal. O que foi aquilo? Onde você aprendeu tal feitiço?"

"Eu não sei o que foi aquilo", respondeu Kal. "Acho que aprendi observando os Izzet."

Então Durri inclinou-se, sorrindo. "Você pode ter aprendido com os Izzet, Kal, mas olhe ao redor." Ela fez um gesto amplo. Kal podia ver os cadáveres fumegantes dos Rakdos espalhados como bonecos retorcidos. "Com certeza parece Gruul para mim."

O Édito das Profundezas

#strong[Função do documento:] Inteligência#linebreak() #strong[Categoria do documento:] Transcrição#linebreak() #strong[Destinatário do documento, primário:] Comandante Yaszen, Academia do Horizonte#linebreak() #strong[Documentador:] Sargento-Escriba Wojek Bogumil Bem#linebreak() #strong[Contexto do documento:] A tritã Zegana, autodenominando-se Oradora Principal, anunciou pronunciamento no Fórum de Azor há um mês. No horário agendado, ela entrou no Fórum de Azor com comitiva, ocupou a tribuna central e proferiu discurso para um público de aproximadamente 12.000 pessoas. O discurso concluiu com um decreto referente a um novo Combinado Simic. Em poucas horas, pregoeiros e sinalizadores referiam-se ao discurso como "Édito das Profundezas".

Arte de Willian Murai
Arte de Willian Murai

#strong[Transcrição do "Édito das Profundezas", Oradora Principal Zegana:]

Cidadãos de Ravnica, obrigada por se reunirem neste local antigo sob céus de chuva#super[i]. Esforçamo-nos para honrar as tradições da superfície ao ocupar este palco sancionado para o nosso pronunciamento.

Muitos milênios se passaram desde que os caminhantes da superfície viram os oceanos de Ravnica. Mas eles persistem, sob muitas camadas da cidade. Artífices de magia Izzet estenderam a mão até nós em eras passadas para construir os sistemas hídricos do nosso mundo. Outros mergulharam perto de nós, buscando escuridão e segredo.#super[ii] Durante todo esse tempo, mantivemo-nos firmes em nosso lar profundo.

Dois princípios guiam minha raça. O primeiro chamamos de Ancoragem. Este princípio nos vincula ao mar, como as algas se vinculam ao leito marinho para não serem levadas pela correnteza. Ele nos enraíza, mantém-nos nas profundezas e seguros contra as ondas de ambição, orgulho e dogma. A Ancoragem nos deixou satisfeitos em permanecer nos oceanos enterrados por muitas épocas.

Mas outro princípio compensa a Ancoragem. Nossos oceanos vivem e respiram em grandes ciclos, e as águas exauridas acima devem ser reabastecidas por águas mais ricas vindas de baixo: a Ressurgência. Sem a Ressurgência, nossos mares seriam um túmulo.

Arte de Mike Bierek
Arte de Mike Bierek

Anos atrás, meu povo#super[iii] detectou um novo crescimento estendendo-se em direção às nossas águas — um crescimento não visto por muitos milênios. Raízes! As raízes pivotantes de grandes árvores da superfície,#super[iv] sondando as profundezas através de pedra e aço em busca de água. Um regresso auspicioso.

Ainda não sabíamos que isso era obra de vocês, caminhantes da superfície. Buscamos conhecimento do seu mundo ao longo dos séculos, por isso conhecíamos as guildas e seus objetivos. Não antecipamos que alguns de vocês trabalhariam juntos para criar mais lugares selvagens em Ravnica. Somente mais tarde soubemos de seus esforços. Somente agora declaramos ao mundo nossa admiração e nosso desejo de apoiar este trabalho.

À medida que a superfície se estendia para baixo, sentimo-nos puxados para cima, revivificados e alegres pela nova vida. Os sábios das profundezas buscaram locais para nossa própria grande Ressurgência — lugares desabitados que pudessem se tornar túneis permanentes entre o seu mundo e o nosso. O primeiro é o que vocês agora conhecem como Zonot Um.

Com nossa biomancia mais poderosa, abrimos o primeiro zonot e o reforçamos com grandes treliças de plantas marinhas. A princípio, não tínhamos certeza de sua estabilidade, apesar de nosso planejamento cuidadoso. Mas ele resistiu e tornou-se nosso primeiro portal para a superfície, uma torre invertida adequada à nossa natureza. Sabíamos que seríamos uma curiosidade na superfície; sabíamos que corríamos o risco de violência contra nós simplesmente por emergirmos.#super[v] Mas calculamos que os ravnicanos ficariam gratos ao contemplarem seus próprios oceanos finalmente, ainda que apenas em vislumbres. E estávamos corretos.

Desde então, criamos outros zonots, e mais virão.#super[vi] Cada zonot se tornará uma comunidade, e cada uma terá um orador. Esses oradores, por sua vez, terão um orador principal, e por enquanto eu desempenho esse papel.

Como oradora principal, conferenciei com muitos líderes durante os últimos meses. Através deles, aprendi que o novo crescimento que atingia nossas profundezas era intencional, nutrido pela Iniciativa das Terras Selvagens.#super[vii] Que este nobre esforço não seja secreto: um quadro visionário de xamãs e druidas Golgari, Gruul e Selesnya trabalhou em conjunto por muitos anos para cultivar espaços selvagens por todo o mundo. Este esforço entre guildas, não sancionado pelos mestres de guilda, tem o potencial de remodelar Ravnica, de ressuscitar verdadeiramente a natureza em nosso mundo. Uma grande Ressurgência.

Arte de Daniel Ljunggren
Arte de Daniel Ljunggren

Portanto, são aqueles entre vocês, caminhantes da superfície, que iniciaram este novo ciclo de renovação. Suas ações nos trouxeram das profundezas e os reuniram com seus vastos oceanos cobertos. Mas outro elemento deve ser reconhecido se quisermos ter sucesso: os remanescentes do Combinado Simic.

Saber da arrogância de Momir Vig nos entristeceu, e o caos causado por suas criações não é perdoável. Os citoplastos, Experimento Kraj.... Os Vigianos desviaram-se demais de seu propósito. Abandonaram seu papel de guardiões da natureza e, em vez disso, viram-na como um brinquedo.

Eles perderam a Ancoragem.

Buscamos o que restou do Combinado. Trouxemos para esses encontros nossos princípios e nossos objetivos. Mesmo agora, aqueles que acreditam na verdadeira missão Simic estão se juntando a nós,#super[viii] sabendo que com nossa ajuda as Terras Selvagens prosperarão, e que nunca seremos levados pelas correntes do orgulho ou do progresso como Vig foi.

Nosso lar está a braças de profundidade, e permaneceremos vinculados a ele para sempre. Esforçamo-nos por uma conexão duradoura entre as maiores alturas e as maiores profundezas de Ravnica, e buscamos sua ajuda. Nós somos os Simic."#super[ix]

#strong[Resumo do documentador:] Suposta porta-voz da maioria da raça tritã descreve as causas do ressurgimento dos tritões, planos para mais "zonots" e intenção de assumir o comando e remodelar o Combinado Simic.#linebreak() #strong[Ação recomendada:] Interrogar indivíduos-chave sobre onde novos "zonots" podem aparecer. Manter patrulhas ao redor dos existentes. Monitorar a atividade e organização do novo Combinado Simic.#linebreak() #strong[Ações pendentes:] Aguardando novas ordens do Comandante Yaszen sobre possíveis ações preventivas contra a reconstrução adicional dos Simic.

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

#super[i] #strong[Bem:] A chuva começou subitamente antes de Zegana e sua comitiva chegarem. Provavelmente induzida magicamente.#linebreak() #super[ii] #strong[Bem:] Implicação de atividade Dimir mais profunda na Subcidade do que o suspeitado atualmente pode justificar investigação adicional.#linebreak() #super[iii] #strong[Bem:] Estimativas Boros da população total de tritões em andamento. Projeções iniciais mostram um número significativo, mas longe de ser massivo.#linebreak() #super[iv] #strong[Bem:] Considerar verificar as subestruturas das principais fortalezas Boros em busca de raízes invasoras.#linebreak() #super[v] #strong[Bem:] Relatório Wojek indica que não houve violência conhecida contra tritões na superfície, mas dispersaram multidões curiosas.#linebreak() #super[vi] #strong[Bem:] Relatórios de campo revelam três "zonots" até o momento.#linebreak() #super[vii] #strong[Bem:] Memorandos Azorius interceptados confirmam a existência deste programa.#linebreak() #super[viii] #strong[Bem:] Inteligência sugere que a raça tritã não age em total uníssono; Wojek relata tritões isolados agindo por conta própria em vários distritos.#linebreak() #super[ix]#strong[Bem:] Zegana não comentou após o pronunciamento, mas escribas e participantes entrevistados posteriormente concordaram geralmente que a intenção dela era declarar-se a nova mestre de guilda do Combinado Simic.

A Absolvição do Pacto das Guildas

Gorev Hadszak recostou-se em sua cadeira e esfregou a barba branca de seu queixo enquanto observava a multidão entrar e as pessoas ocuparem seus lugares em frente ao palco. Gorev era grisalho em todos os sentidos da palavra — seu rosto, suas roupas, seu comportamento. Ele fora um Wojek e, embora estivesse aposentado há muitos anos, diria a você que ainda era um Wojek. Ninguém sabia exatamente quantos anos Gorev tinha, pois a magia Boros podia sustentar a vida de um Wojek muito além da média das pessoas. Apesar de sua idade, cabelos grisalhos e feições desgastadas, Gorev ainda parecia capaz de arrastar um ogro bêbado para fora de um bar ou nocautear um espancador Rakdos. Seus pulsos eram tão grossos quanto as panturrilhas da maioria dos homens e seus braços eram cobertos de cicatrizes. Tinha um rosto que parecia que você poderia bater nele com uma tábua de madeira e não deixar marca... bem, pelo menos não uma marca nova. Além disso, o rosto de Gorev fora atingido por coisas muito mais duras que uma tábua.

Arte de Tyler Jacobson
Arte de Tyler Jacobson

Ao lado de Gorev sentava-se seu sobrinho, Pel Javya, um Wojek recém-formado na academia, barbeado e sempre em posição de sentido. Seu uniforme era uma obra-prima sem rugas, com tudo o que pudesse brilhar à luz do sol polido até o brilho máximo — botas, botões, metais. Um rapaz esperto, Pel trabalhou duro para entrar no corpo Wojek e tornar-se um investigador exemplar. Ele fora designado recentemente a um parceiro e começou sua patrulha pelo Décimo Distrito. Pel relatava cada incidente, desde um carrinho de maçãs tombado até uma briga de bêbados, ao seu tio Gorev, com entusiasmo juvenil, esperando por um aceno de aprovação, algum conselho sábio ou uma história dos velhos tempos.

Era o aniversário do fim do Pacto das Guildas, o contrato mágico entre as dez guildas de Ravnica que durou mais de 10.000 anos. A peça apresentava uma versão condensada dos eventos que levaram ao fim do Pacto das Guildas. Gorev lembrava-se bem daqueles dias. A peça começava com uma cena mostrando o herói, Agrus Kos, atravessando o palco sob um estrondo de vivas e aplausos. Então o cenário mudava, usando um pouco de magia e uma boa cenografia, simulando telhados e cenas de crimes para Agrus investigar. O público era envolvido pela maneira como Agrus Kos começava a resolver o mistério que levou a eventos tão tumultuados.

Arte de John Avon
Arte de John Avon

Depois de um tempo, Pel inclinou-se para o tio. "Como as guildas operavam naquela época? Como era sob o Pacto das Guildas?"

"Ravnica era muito diferente naquela época. As guildas governavam. O que elas diziam era lei e todos sabiam disso. Se você morasse em um distrito sob a proteção de uma guilda, seguia as regras dela. Se não tivesse guilda, como minha família, vivia nos arredores dos distritos, ganhando a vida como podia. Mas a maioria dos ravnicanos estava ansiosa para se juntar a uma. A maioria queria estrutura, proteção e um senso de pertencimento. Foi por isso que me juntei aos Wojeks. Eu gostava do que os Boros representavam naquela época."

Gorev recostou-se. Seus olhos físicos observavam a peça, mas interiormente Gorev revivia uma memória dos Boros de antigamente, os dias de Razia e dos anjos de Soliar. Legiões de Wojeks, lâminas-ligeiras e cavaleiros celestes reunidos no salão maciço, o aço reluzente refletindo o sol, apresentando sua lealdade imortal à sua líder angelical — sua parun. Gorev era um deles, contemplando sua comandante angelical, banhando-se em seu olhar feroz e sublime.

Razia, Arcanjo Boros | Arte de Donato Giancola
Razia, Arcanjo Boros | Arte de Donato Giancola

"O que os Boros representavam naquela época?" A pergunta tirou Gorev da memória.

Após uma pausa, Gorev disse: "Eles representavam o Pacto das Guildas. Representavam 10.000 anos de ordem em Ravnica."

Eles assistiram à peça por algum tempo, mas o que Gorev disse permaneceu na mente de Pel. Pel ouvira os contos contados tarde da noite ao redor da lareira. Amigos de seu pai ficavam até tarde conversando sobre os velhos tempos e, em raras reuniões de família, Pel frequentemente ouvia dois parentes idosos conversando sobre as lendas da morte de Razia, a destruição de Prahv ou a quebra do Pacto das Guildas. Mas seu tio, que era um Boros e um Wojek, nunca falara do assunto desde que Pel conseguia se lembrar.

No palco, Agrus Kos enfrentava Szadek, o antigo mestre da guilda Dimir. O público começou a vaiar e sibilar para o vampiro. O ator sibilou de volta para o público. Isso rendeu uma risada e mais algumas vaias da multidão.

Gorev inclinou-se para Pel novamente. "É por isso que os Boros são mais importantes agora do que nunca. Agora não há um Pacto das Guildas para sustentar a lei e impedir criaturas como ele de ganhar poder. Não me importa qual é a face dos Dimir agora, eles sempre causarão problemas. Você precisa seguir as pistas sutis, precisa pensar de forma diferente e certificar-se de estudar magia que não esteja nos livros e manuais. É onde estão as camadas mais profundas dos Dimir — fora dos livros."

Arte de David Palumbo
Arte de David Palumbo

Pel assentiu. Os manuais Boros sobre os Dimir eram minuciosos, mas a sensação na academia era de que a informação estava sempre desatualizada. Eles sempre se sentiam três passos atrás, ou simplesmente perdidos na mata.

A peça chegou ao seu clímax, mas Gorev estava focado em seu sobrinho. Olhou para Pel com um senso de dever, um sentimento de urgência. "Pense nisso, Pel. Szadek e aquele psicopata Azorius destruíram a lei. Eles destruíram tudo o que manteve Ravnica em equilíbrio por 10.000 anos. Você cresceu no rescaldo, então não conhece outra maneira, mas para nós que vivemos naqueles tempos, pareceu o fim do mundo... inferno, foi o fim do mundo. Estou surpreso que as guildas tenham se mantido unidas tão bem quanto ficaram."

Gorev colocou a mão no ombro de Pel. "Depende de você agora. Sua vigilância, sua paixão devem superar o desejo deles de destruir e controlar. É por isso que esta peça é uma tragédia — não é um triunfo de Kos e dos Boros sobre Szadek e Augustin — é uma tragédia. É a destruição da maior criação já colocada no papel. O maior feitiço já lançado."

As palavras de Gorev silenciaram, mas seus olhos transmitiram a mensagem final. Pel sabia que a luta real por Ravnica estava espalhada pela Subcidade, onde os Dimir permaneciam fora de vista, puxando suas cordas de marionete invisíveis para organizar seu próximo ataque. Ele sabia que precisava ser transferido do serviço na superfície para realmente atacar a raiz do problema de Ravnica.

A Absolvição do Pacto das Guildas pode ter sido apenas uma peça, mas para um Wojek na plateia ela continha uma mensagem que moldaria o trabalho de uma vida inteira.

Persistência da Memória

Sarusin estava sentado em uma sala mal iluminada, muito abaixo das ruas de paralelepípedos de Ravnica. Ele sabia pelo ar que estava no subsolo — o cheiro e os sons eram diferentes embaixo da terra. Onde exatamente ele estava, não tinha ideia, o que era estranho, pois Sarusin conhecia muito bem os túneis sob o Sétimo Distrito. Deveria; ele crescera neles.

Agora olhava ao redor, mas nada parecia familiar. Estava em algum outro lugar, embora não conseguisse se lembrar de como chegara lá. Justo quando fez menção de se levantar da cadeira, uma voz suave derramou-se da escuridão no limite da luz de velas.

"Não se levante." Algo na voz fez Sarusin permanecer em seu assento. Algo calmante, mas mortal.

Espião da Balaustrada | Arte de Jaime Jones
Espião da Balaustrada | Arte de Jaime Jones

"Você foi escolhido para uma tarefa muito importante." Um homem pálido emergiu das sombras. O perigo emanava do homem — sua pele branca como osso brilhava em forte contraste com seus olhos pretos, cabelos pretos e couro preto. Sarusin era um agente Dimir razoavelmente experiente, mas não conseguiu se controlar e recuou instintivamente. Um vampiro. "Estou aqui para lhe dar as ferramentas para realizar essa tarefa, então considere-me seu... professor." O vampiro curvou-se diante de Sarusin com os braços estendidos, mas nunca tirou seus olhos frios e mortos do agente.

"Onde estou?" Sarusin sentiu sua voz emergir como se murmurada por outra boca.

"Você está em um lugar desconhecido por todos. Nem mesmo eu sabia sobre este lugar até você me contar." O vampiro esticou a mão para trás, na escuridão, e puxou uma maleta de couro, colocando-a sobre a mesa sob a luz das velas.

A cabeça de Sarusin doía e seus membros pareciam um pouco dormentes. "O que quer dizer? Nunca estive aqui em toda a minha vida."

Da maleta de couro, o vampiro retirou um frasco de líquido brilhante. Quando Sarusin olhou mais de perto, notou que não era o líquido que brilhava, mas sim algo dentro dele — algo que parecia uma tira de papel com padrões. O vampiro destampou o frasco e, com um par de delicadas pinças de prata, colheu a tira brilhante de papel intrincadamente padronizado do líquido e a segurou diante de Sarusin.

"Esta tira contém todas as suas memórias deste lugar, como eu as extraí de você, como chegamos aqui e como nos conhecemos. Estou aqui para lhe ensinar o método da excisão de memória."

O vampiro apresentou-se como Mirko Vosk. Sarusin percebeu que não sairia daquele lugar com nenhum conhecimento sobre o vampiro. Ele sabia que qualquer informação sobre Mirko seria extremamente valiosa e pensou brevemente em anotar secretamente essa informação quando pudesse, mas rapidamente afastou tais pensamentos perigosos de sua mente. Sob o comportamento civilizado, Mirko era como uma cobra faminta enrolando-se em um camundongo indefeso, e Sarusin percebeu seus dedos nervosos inconscientemente torcendo um pompom de couro em sua túnica em nós apertados.

"Memórias não são tão frágeis quanto se imagina", começou Mirko. "Elas são uma doença. Uma memória prazerosa, de um desejo cumprido ou uma ambição realizada, pode se tornar uma obsessão. Uma memória sombria, gravada no medo e na dor, pode perseguir alguém até o túmulo." Mirko ergueu o fio de memória brilhante.

"Nenhuma memória é inocente. Neste momento, sua mente está tentando reconectar os caminhos que eu rompi. Se eu não for diligente em meu trabalho, você começará a reconectar e reformar memórias a partir de associações residuais, pensamentos aleatórios. Logo você teria impressões vagas sobre nosso encontro e nossa jornada até aqui, e meu trabalho teria falhado. No caso do nosso trabalho, a mente do seu alvo é seu inimigo mais poderoso, e a curiosidade é sua arma de preferência."

Sarusin ouvira falar mais sobre escumadores psíquicos e excisores — magos especializados em assassinato de memória e corretagem de conhecimento — à medida que avançava mais fundo na toca do coelho da rede Dimir. As outras guildas de Ravnica pagariam generosamente para ganhar uma vantagem sobre seus rivais — especialmente a Liga Izzet, que estava sempre buscando incansavelmente novas informações.

"Como eu aprendo?"

Vapores Mentais | Arte de Mark Winters
Vapores Mentais | Arte de Mark Winters

Mirko abriu a maleta novamente e produziu outro frasco brilhante. "Aqui estão todas as memórias de que você precisará." Mirko removeu a tampa selada e retirou o longo fio de memória brilhante. "Estas memórias foram removidas de forma um tanto... apressada... então podem ser um pouco desorientadoras."

"Espere", disse Sarusin abruptamente. "Você quer dizer que essas são..."

"Sim. São as memórias do seu antecessor. Um excisor poderoso que se tornou descuidado. O que me lembra..." Com velocidade sobre-humana, Mirko prendeu Sarusin em um aperto de aço, seu rosto uma máscara de morte-viva assassina. "Não se torne descuidado."

Mirko empurrou o homem trêmulo de volta ao seu assento, a aparência humana retornando como um véu. "Você está pronto?"

"Como você vai—"

Sarusin não teve tempo de terminar. Mirko empurrou as memórias para dentro de sua mente como se estivesse cravando um estalactite de gelo em sua cabeça. Enquanto imagens e conhecimento inundavam sua consciência como uma torrente de detritos descendo por um canal inundado, ele estava, de alguma forma, ciente de seu corpo físico contorcendo-se na cadeira, sua cabeça explodindo enquanto a mão fria e morta de Mirko o mantinha preso ao assento.

Moer Mente | Arte de Daarken
Moer Mente | Arte de Daarken

Sarusin viu — aprendeu — anos de treinamento, tarefas secretas, vítimas e técnicas, tudo em questão de instantes. Ele vivenciou esses flashes como se fossem suas próprias memórias, mas houve algumas experiências em que sentiu uma mente que não era a sua: uma mente obcecada por poder e controle. Uma mente ambiciosa muito além do que Sarusin jamais ousara vislumbrar. Sarusin lutou para manter essa mente separada da sua, mas começou a perder o rastro de quais eram suas memórias e quais eram as memórias do outro. Ele lutava sob o peso das informações, das imagens, da "outra" realidade, memórias cheias de avareza que arranhavam e mordiam as grades de sua nova prisão.

Últimos Pensamentos | Arte de Peter Mohrbacher
Últimos Pensamentos | Arte de Peter Mohrbacher

A vítima jazia largada em uma cadeira enquanto o mago Dimir puxava os últimos centímetros do fio de memória da cabeça dela. Ele extraiu a memória de seu domínio da mesma forma que um jardineiro experiente extrairia as raízes de uma planta valiosa de seu lar terreno.

Ele selou o feitiço e foi até o espelho. Por um breve lampejo, outra pessoa olhou de volta para ele. Um estranho. Os pensamentos não condiziam com o rosto que via.

Ele agarrou a lateral do lavatório. O "outro" estava se infiltrando novamente.

Ele mexeu em um pompom de couro em sua túnica, enquanto alguma parte dele tentava se agarrar a algo familiar, mas as memórias começaram a gotejar. Ele podia sentir a represa enfraquecendo sob a pressão de uma nova identidade se formando em sua mente. Uma identidade mais poderosa.

Este novo corpo serviria muito bem.

O Sepultamento, Parte 1

Santuário Sem Deuses | Arte de Cliff Childs
Santuário Sem Deuses | Arte de Cliff Childs

Eles pararam e contemplaram a janela intacta, o símbolo da guilda Orzhov captando o sol da manhã, preenchendo a catedral em ruínas com um brilho dourado. Ver tal maravilha no Cinturão de Escombros era algo raro.

Domri Rade avaliou o vidro imaculado do disco solar enquanto girava a pedra lisa e pesada em sua mão. Seus melhores amigos, Chicote e Lakkie, estavam ao seu lado, tensos de expectativa.

Aquilo ia ser incrível.

Domri olhou para seus amigos. "Prontos?"

Chicote mostrou os dentes e assentiu.

"Com certeza. Manda ver, Dom." Lakkie sorriu através da tinta de guerra que Chicote passara nele. Nada mal, pensou Domri.

Domri virou-se, armou o braço e deixou a pedra voar. Toda a experiência da jovem vida de Domri — atingindo lagartos, pássaros, Golgaris, mercadores e carroças — guiou a pedra em direção ao alvo como um projétil do destino. Domri imaginara o efeito em sua mente antes de soltar a pedra, mas nada poderia tê-lo preparado para o som satisfatório do vidro explodindo no impacto. Um estrondo ressonante ecoou pelo salão desmoronado. Estilhaços de vidro voaram para todos os lados. Duas enormes vidraças amarelas caíram no chão de pedra antes de se despedaçarem com outro som deslumbrante.

Foi sublime.

"Krokt!", disse Chicote. Então todos romperam em uivos de júbilo e risadas e dançaram como goblins após uma incursão.

Os três amigos sentaram-se, escolhendo entre os fragmentos coloridos de vidro, encontrando as melhores peças e prendendo o vidro a cabos de madeira. Pareciam lâminas douradas e mágicas.

Runa-Chave Gruul | Arte de Daniel Ljunggren
Runa-Chave Gruul | Arte de Daniel Ljunggren

"Poderíamos chamar nossa tribo de Lâminas de Estilhaço", disse Domri, admirando sua faca de aparência perversa.

"É, e só os chefes recebem estas." Lakkie ergueu sua adaga terminada. Seu pai sabia fazer coisas úteis com juncos e grama, e Lakkie provou ser bom em prender o vidro.

"Isso ficou animal", disse Chicote com admiração. Ele estendeu sua lâmina de vidro e o cabo para Lakkie. "Faz a minha."

Domri fizera uma adaga decente de duas lâminas com o vidro em extremidades opostas. Ele a terminou e demonstrou sua eficácia contra alguns oponentes imaginários, primeiro cortando, depois golpeando, em movimentos razoavelmente habilidosos.

Lakkie terminou a adaga de Chicote. Domri olhou para seus amigos e sorriu.

"Vamos quebrar algumas coisas."

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Estava escurecendo na caminhada de volta ao acampamento e morcegos madrugadores começaram a esvoaçar, ansiosos para banquetear-se com os insetos do crepúsculo que zumbiam por ali. A escuridão era uma hora perigosa para estar no Cinturão de Escombros, onde vagavam feras que poderiam engolir um guerreiro inteiro ou esmagar uma carroça sob as patas. Os garotos instintivamente apressaram o passo. Chicote espantava besouros-de-fogo com um galho de salgueiro e Domri mantinha o olho nas sombras sob os edifícios arruinados. Lakkie estava em outro mundo, como de costume. Domri certa vez salvara Lakkie de ser o almoço de um makka, e em outra ocasião impedira Lakkie de ser esmagado por um dromade. Domri se perguntava se Lakkie algum dia teria perfil para a vida Gruul de verdade. Ele era meio Selesnyano.

Escaravelho da Ferrugem | Arte de Adam Paquette
Escaravelho da Ferrugem | Arte de Adam Paquette

Como se tivessem combinado, Lakkie disse: "Como será que vai ser? Sabe, o Sepultamento."

"Lakkie! Seu cabeça de goblin." Chicote o atingiu com seu galho de salgueiro, deixando uma marca.

"Krokt, isso doeu! Só estava imaginando, só isso." Lakkie esfregou o braço e lançou um olhar feio para Chicote.

"Não é nada demais", disse Domri. "Estou pronto." Ele esperava que sua voz não traísse a fraqueza que palpitava dentro dele à mera menção do ritual.

Ele sabia que Chicote estava tão interessado quanto Lakkie. Ambos estariam avaliando se passariam pelo Sepultamento dentro de um ano. Contos do rito de passagem Gruul eram envoltos em segredo e pavor.

O Sepultamento vinha para todos que buscavam se juntar aos Gruul. Dizia-se pelos xamãs anciãos que ele arrancava todo o apego a uma vida dentro da cidade de Ravnica, uma cidade que era escrava das regras e representava a destruição da natureza. Dizia-se que qualquer um que suportasse o Sepultamento voltava para a tribo renascido, com propósito claro e pronto para viver a vida de um Gruul. Todos juravam segredo, nunca falando dos detalhes para aqueles que ainda não haviam passado por ele. Isso selava o Sepultamento dentro de um sarcófago de pavor desconhecido nas mentes de todos os jovens Gruul conforme se aproximavam do dia e hora marcados.

Zumbia nas entranhas de Domri como um ninho de vespas. Seu Sepultamento começaria ao nascer do sol.

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A manhã fora gasta cobrindo Domri com trajes fúnebres e tinta feita de cinzas e argila. Xamãs resmungavam cânticos de sepultamento enquanto, do lado de fora da tenda, a tribo lamentava como se ele tivesse morrido durante a noite. Havia algo de tão real no som de seu luto que o inquietava.

"Por que estão fazendo isso? Eu estou bem." Domri sentiu uma irritação nascida do medo.

O xamã que cuidava dele, Sabast, olhou para ele através de uma máscara de ocre e cinzas. "Eles estão chorando pela perda do menino que conheciam. De uma forma ou de outra, aquele menino morre hoje."

Por um momento, Domri sentiu uma sensação de pânico. Talvez aquilo fosse demais para ele. Talvez fosse perigoso demais. Mas Domri sabia que outros tinham ido antes dele. Se eles conseguiram, ele também conseguiria.

À tarde, Domri e Sabast caminharam profundamente para dentro da Utvara, uma área imensa de Ravnica que vira destruição ao longo dos séculos e era lar de muitos Gruul, apesar das tentativas dos incorporadores Orzhov de alegar o contrário.

"Veja como a natureza responde", disse Sabast, enquanto vagavam pelas ruínas antigas. "Com o tempo, tudo voltará para o solo. Há sabedoria no que os Golgari dizem. Eles entendem o desejo da natureza de derrubar estruturas e reduzi-las a terra, mas seus corações foram mortos. Eles não têm paixão pela vida."

Domri observou o poder imperceptivelmente lento da natureza. A pedra cedera às árvores. Videiras romperam os tijolos, suas raízes agarrando-se a cada nicho e fenda. A vida estava despedaçando a pedra e o tijolo mortos da cidade.

Terreno Pisoteado | Arte de David Palumbo
Terreno Pisoteado | Arte de David Palumbo

"A proximidade com a morte traz muitas coisas para os Gruul: clareza de propósito; liberdade do apego; ver a futilidade das regras; e, acima de tudo, um renovado senso de vida. O vigor e a vivacidade nunca são mais poderosos do que quando um guerreiro encara a mortalidade. É aí que os Golgari e os Gruul se separam. Eles mergulharam na morte, permitindo que ela lhes roubasse a vivacidade, enquanto nós usamos o ciclo da natureza para nos abastecer e sentir mais paixão pela vida. Hoje, você experimentará isso em primeira mão."

"O que vai acontecer?"

"Sua cabeça nunca será capaz de prepará-lo para o que seu coração entende plenamente. Minhas palavras são para sua mente. A vida é para o seu coração. Não ouça minhas palavras muito de perto ou você se tornará um Azorius. Você deve sentir o seu caminho."

À medida que o crepúsculo se aproximava, as ruínas cobertas de vegetação começaram a projetar sombras misteriosas. Domri nunca, em suas andanças juvenis, aventurara-se tão longe na Utvara. Nada parecia familiar. Eles se aproximaram de uma parede de videiras e raízes emaranhadas que parecia impenetrável, mas Sabast caminhou através da densa camada delas para a boca de uma caverna escondida. Sabast puxou uma tocha da parede, murmurou um feitiço para acendê-la e caminhou por um caminho escarpado decorado com símbolos e pictogramas Gruul.

Após uma longa e escorregadia jornada por túneis, cruzando riachos subterrâneos e contornando estalagmites, eventualmente chegaram a um buraco na terra escura, cercado por itens funerários Gruul.

Sabast fincou a tocha no chão com uma chuva de faíscas e parou diante da cova. Ele parecia um espírito do outro mundo enquanto seus olhos olhavam para Domri sob a luz da tocha.

"Domri Rade. É hora de o seu falso eu morrer. É hora de o seu verdadeiro eu nascer."

O Bem Maior

Quando as portas maciças da sala de guerra se abriram, Gideon Jura pôde sentir a energia atingi-lo como uma onda de calor de uma forja de fundição. Não era calor real, mas sim um vento energético que pulsava através de seu corpo como uma onda de choque. Por um segundo, ele ficou atônito com o poder. Ele já estivera perto de muitos anjos em seu tempo, mas a aura dela era uma ordem de magnitude superior a qualquer uma que ele já tivesse encontrado.

Um leve sorriso sarcástico passou pelo rosto do mago de guilda Boros que escoltava Gideon enquanto entravam na câmara. O escolta executou a saudação Boros e anunciou: "Líder de Guerra. Gideon Jura aqui para vê-la." Ele então curvou-se e saiu.

Aurélia desviou os olhos de uma ampla mesa de aço gravada com símbolos, torres em miniatura e edifícios cobrindo sua superfície, mas Gideon não conseguia tirar os olhos da mestre de guilda Boros. Seus cabelos, olhos, armadura — tudo nela — parecia cintilar como o ar subindo de um horizonte castigado pelo sol. Gideon não conseguia dizer se havia minúsculos vórtices de energia por todo o corpo dela ou se ela estava magicamente cercada por um escudo de mana rodopiante.

Ele percebeu que estava encarando.

Aurélia, Líder de Guerra | Arte de Slawomir Maniak
Aurélia, Líder de Guerra | Arte de Slawomir Maniak

"Mestre de guilda", disse ele, colocando a mão no peito e inclinando levemente a cabeça.

"Gideon Jura." A voz dela era poderosa, com uma qualidade de outro mundo. "Seu sotaque, vestimenta e até seu nome dizem que você não é deste distrito. E, no entanto... tenho notícias de que você salvou uma brigada inteira dos meus Boros de uma emboscada Rakdos que teria matado até o último deles."

"Eles eram bem treinados para o combate. Eu apenas mostrei onde golpear e quando."

"Quanta modéstia." Aurélia sorriu. "Mas acho seguro dizer que você mesmo desferiu alguns golpes." Aurélia contornou a mesa e parou diante de Gideon. "O que me intriga, Jura, é por que não ouvi falar de sua habilidade em batalha antes de agora. Tenho a sensação de que alguém como você não é propenso a se esconder e fugir da glória da batalha."

"Não sou daqui, Mestre de Guilda. A maioria das minhas viagens me leva... para outros lugares."

Aurélia considerou a resposta de Gideon com uma mistura de curiosidade e distanciamento angelical, mas Gideon podia ver a mente dela trabalhando.

"Pois bem." Ela dobrou as asas e apontou para os edifícios em miniatura sobre a mesa. "Conhece este lugar?"

"Não conheço", disse Gideon.

"É o Nono." Aurélia colocou a mão sobre o telhado de um dos edifícios. "Fica na borda dos Cem Degraus. Território Azorius. É claro que os Azorius não acham adequado entrar no Nono. É um pouco... prático demais... para o gosto deles. Os Rakdos e Gruul o disputam e o despedaçam como o cadáver de um dromade, enquanto os Dimir... bem... eles fazem o que os Dimir fazem melhor: escondem-se nas sombras e puxam cordas de marionetes."

Ceratops Coroado | Arte de Steve Prescott
Ceratops Coroado | Arte de Steve Prescott

Gideon olhou para os modelos de edifícios limpos, vazios e organizados, mas imaginou a real situação das pessoas que tentavam coexistir pacificamente dentro de uma zona de guerra. "Então, é um território contestado. As pessoas inocentes que vivem lá devem estar pagando um preço alto."

"Exatamente", disse Aurélia com um tom pesado. Ela olhou para Gideon. "Os inocentes sempre pagam o preço mais alto. Eu adoraria entrar lá com alguns Elementais das Cinzas e queimar até o último Rakdos, Gruul e Dimir, mas ravnicanos sem guilda vivem lá há séculos em relativa paz. Antigamente, costumava ser tudo território Azorius. Mas quando o antigo Pacto das Guildas foi quebrado..." Aurélia silenciou por um momento. "Não vou entediá-lo com uma lição de história, Jura, mas no rescaldo, os Azorius tiveram que abandonar o Nono para que pudessem reconstruir Nova Prahv. Naturalmente, os Rakdos e Gruul abriram caminho e começaram a brigar como brutamontes. Grande parte do Nono foi perdida."

"E onde estavam os Boros em tudo isso?"

"Eu não era mestre de guilda naquela época." A resposta de Aurélia tinha um toque de aço frio. Gideon tocara em uma ferida. "Éramos liderados por uma vergonha para a Legião. Assisti enquanto faixas do Nono escapavam. Sua perda e outros erros imperdoáveis praticamente forçaram... uma mudança... na liderança da guilda. Perdoe-me, Jura. Ainda sinto o amargor daqueles tempos. Deixe-me mostrar uma coisa."

Aurélia fez sinal para Gideon acompanhá-la pelo chão de mármore polido da grande sala de guerra até uma sacada alta que dava para o pátio central de Soliar. O ar cheirava a novo e limpo. Os olhos de Gideon ajustaram-se à luz brilhante do sol. Muito abaixo, legiões de cavaleiros Boros treinavam e marchavam sob o sol reluzente, enquanto bandeiras e estandartes moviam-se com a brisa. Era uma visão gloriosa.

Mobilizar a Legião | Arte de Eric Deschamps
Mobilizar a Legião | Arte de Eric Deschamps

Depois de contemplar a grandiosidade de Soliar e seus exércitos, Aurélia falou. "Não consigo desfrutar disso plenamente, Jura. Toda essa glória, e tudo em que consigo pensar é naquelas pobres pessoas no Nono que são deixadas para trás para suportar a miséria, a anarquia e a estupidez." Ela olhou para Gideon. "Jura, o Nono é uma mancha em Ravnica, uma mancha nos Boros e uma mancha em minha alma. Desejo ardentemente limpá-la."

"E você quer que eu ajude?"

"Não, Jura, quero que você lidere." Aurélia virou-se e colocou a mão no ombro dele, uma mão que parecia muito mais pesada do que Gideon esperava. "Eu reconheço um líder quando vejo um. Você tem grandeza dentro de si."

Ela apontou para cem soldados reluzentes no campo de desfile. "Estou preparada para lhe dar o comando daquele batalhão, ali, se você lutar conosco. Ou melhor ainda, se você se juntar a nós." O poder irradiava do rosto dela enquanto Aurélia fixava os olhos em Gideon.

Elite Boros | Arte de Willian Murai
Elite Boros | Arte de Willian Murai

"O batalhão é meu mesmo que eu escolha não me juntar aos Boros?", perguntou Gideon.

O rosto de Aurélia permaneceu implacável, mas ela hesitou antes de responder. "Sim, Jura. Mas o comando será meu. Entendido?"

"Com certeza." Gideon sentiu um senso de dever e lealdade à mestre de guilda angelical brotar do fundo do peito. Com soldados assim, montanhas poderiam ser movidas.

Mas Gideon vira algo muito pior que o Nono em suas viagens. Algo pior do que até o lorde demônio Rakdos poderia reunir.

Ele vira um mundo sendo devorado.

Mas mesmo enquanto Zendikar enfrentava horrores extraplanares, as ruas de Ravnica fervilhavam de inocentes pegos no fogo cruzado da guerra entre guildas — os chamados "sem-portões". Ele era necessário aqui. Com a ajuda de Aurélia, ele poderia salvar inúmeras vidas.

Gideon, Campeão da Justiça | Arte de David Rapoza
Gideon, Campeão da Justiça | Arte de David Rapoza

Gideon conhecia os perigos de seguir ordens de outra pessoa com muita facilidade. Ele não estava pronto para se tornar um Boros. Mas estava pronto para empunhar suas armas pelo bem maior.

Gideon desviou os olhos do mapa do Nono e sorriu como um lobo.

"Quando começamos?"

A Guilda dos Negócios

Portão da Guilda Orzhov | Arte de John Avon
Portão da Guilda Orzhov | Arte de John Avon

Bosco destrancou a pequena, porém espessa, porta lateral de madeira que dava acesso, através do muro externo, aos terrenos da mansão. Ele passou por um par de guardas, pagando a cada um uma moeda enquanto se dirigia a um edifício destinado aos zeladores e jardineiros. Ao abrir a velha porta de madeira, sentiu o frio das paredes de pedra e esfregou as mãos vigorosamente. Bosco era baixo, de lábios finos, com cabelos pretos que pareciam ainda mais escuros contra sua pele pálida. Estava no início dos seus vinte anos e já trabalhava para os Orzhov há anos, esfregando degraus, polindo metais, passando pano no chão. Mas Bosco tinha planos. Ele não seria um faxineiro por muito tempo. Estava fazendo contatos e logo deixaria sua marca.

Guardas da Basílica | Arte de Dan Scott
Guardas da Basílica | Arte de Dan Scott

Ele começou a recolher seu esfregão e balde quando o trul de Jozica entrou arrastando os pés. Jozica era a executora empregada pelo dono da propriedade. Bosco a temia. O trul, ele odiava.

"Três moedas." O trul desdenhou por trás de sua placa facial dourada. "Imposto de faxina", disse ele, com tanto prazer agudo e baboso quanto fizera no primeiro dia de Bosco. Seu sorrisinho de satisfação e o lamento exigente transformaram, com o tempo, o trul em um inimigo mortal.

Por uma fração de segundo, Bosco imaginou-se chutando o trul para o outro lado da sala e cravando o cabo de seu esfregão através daquela placa facial dourada, mas rapidamente pensou melhor. Era o trul pessoal de Jozica e Bosco sabia que ela gostava muito dele.

Um lapso de razão e ele ficaria endividado com ela por muito tempo — ou pior.

Trul Zeloso | Arte de Daarken
Trul Zeloso | Arte de Daarken

O trul recuou e sibilou para Bosco enquanto ele depositava as três moedas na caixa de dinheiro trancada, como se seus sentidos primais de alguma forma soubessem do desejo interior de Bosco de esmagar seus ossos até virarem pasta. Assim que as moedas tilintaram, o trul agarrou a caixa firmemente em seus braços cinzentos e borrachudos e saiu apressado, rindo para si mesmo como se tivesse realizado o assalto mais engenhoso de todos. Bosco engoliu outro impulso de persegui-lo e fazê-lo comer a caixa de dinheiro. Em vez disso, agarrou seu esfregão e balde e dirigiu-se ao grande chão de pedra do salão principal da mansão. O som das palmadas dos pés do trul ecoava ao longe.

Aguarde o momento certo, Bosco, pensou ele. Sua hora está chegando.

"Cinco séculos", disse Bosco, sobre uma caneca de bumbat.

"O quê?" Drovo quase cuspiu seu bumbat pelo nariz.

"Essa é a quantidade de dívida que devo à guilda. Cinco séculos ao todo."

"Isso é loucura. Como isso aconteceu?"

"Bem, eu era novo nos Orzhov — um ingressante. Para ter a proteção, benefícios, estabilidade e oportunidades deles, tive que fazer um investimento inicial substancial. Não nasci na guilda, então não tive ancestrais pagando a dívida por mim. Então incorri em algumas penalidades."

"Krokt. O que fez você finalmente aceitar?"

"Você sabe como é ser sem-guilda: todo mundo nos chuta e ninguém nos dá respeito. Mas os Orzhov, eles andam pelas ruas como reis. Digo, olhe!" Bosco afastou sua cadeira da mesa para permitir que seu amigo admirasse seu novo traje de faxineiro em preto e branco com fios de ouro, botões de prata e abotoaduras, tudo ostentando o símbolo da guilda Orzhov. "Sou apenas um faxineiro e ganho essas roupas. As pessoas me respeitam e eu sempre posso conseguir um adiantamento de um cunhador Orzhov por mais um ano de serviço." Bosco jogou uma bolsa gorda de moedas sobre a mesa.

A alfaiataria impecável e o saco de moedas de Bosco criaram uma pontada de inveja em Drovo.

Mas cinco séculos?

"O que acontece quando você... sabe, morre?", perguntou Drovo, um pouco apreensivo.

"Eu não me importo com isso", disse Bosco, um pouco brusco demais. "Trata-se de conseguir o que é meu enquanto estou vivo, Drovo. Quem se importa depois que eu estiver morto? Os Orzhov incentivam a ambição, alguém disposto a fazer o que for preciso para subir na vida." Bosco fechou a mão em um punho para dar ênfase. "Vou aproveitar cada oportunidade que tiver. Vou mostrar a eles que não podem viver sem mim. Posso até ser capaz de quitar parte da minha pós-dívida. Poderia até viver uma pós-vida de luxo se jogar bem minhas cartas."

"Uau. Você realmente se tornou um Orzhov. Eu sei que na última vez que nos encontramos você estava falando sobre isso, mas não achei que faria de verdade. Achei que se juntaria aos Sem-portões ou algo assim."

"Os Sem-portões. Eu quero fazer parte de algo poderoso. Os Orzhov são donos de Ravnica. Eles não são empurrados pelas outras guildas." Bosco inclinou-se para frente. "Vou ser promovido rápido aqui, Drovo. Os Orzhov sabem como recompensar a ambição e eu conheço alguém que tem o poder de fazer as coisas acontecerem para mim... e você pode fazer parte disso também, se estiver disposto."

"Sente-se, Bosco", disse Jozica. Bosco odiava o fato de ainda se sentir desconfortável perto da executora Orzhov. Ele quase podia sentir a quantidade de mortes que ela já causara e com que facilidade o fizera. Ele tentou não olhar para ela.

O alto prelado sentava-se atrás de uma escrivaninha de ardósia preta em uma cadeira dourada gravada com símbolos Orzhov e coberta por almofadas luxuosas e bordadas. Um trul empurrou uma cadeira em direção a Bosco e fugiu rapidamente para trás de umas cortinas de veludo grosso antes de reaparecer ao lado do cotovelo do alto prelado, ronronando enquanto oferecia um prato de uvas.

Sumo Sacerdote da Penitência | Arte de Mark Zug
Sumo Sacerdote da Penitência | Arte de Mark Zug

Bosco sentou-se. O alto prelado era um homem sem vida. Uma vida inteira de mentiras, trapaças e corrupção transformara suas feições em um amálgama impassível, onde a apatia e o desgosto estavam permanentemente fixados. O alto prelado parecia olhar para o nada. Bosco começava a achar que talvez o velho não estivesse totalmente lúcido. Assim que Bosco olhou para Jozica, viu os olhos do alto prelado girarem e fixarem-se nele de uma maneira perturbadora, semelhante a um réptil. Havia uma mente afiada ainda à espreita dentro das dobras de carne que pendiam de seu rosto. Uma mente que avaliava Bosco como um açougueiro avaliaria uma peça de carne.

Bosco engoliu seco.

Jozica produziu um contrato e o deslizou em direção a Bosco. No meio da mesa, o alto prelado interrompeu seu trajeto, colocando um dedo gordo e cheio de anéis sobre ele com um baque.

"Isso o vinculará magicamente à sua palavra e ação." A voz do alto prelado crocitou para ele, sua fala pontuada por um chiado esforçado. "Você assina isto, realiza sua tarefa e sua dívida será substancialmente reduzida pelos termos acordados." O alto prelado então empurrou o documento em direção a Bosco. Ele fez um som crocante e áspero. Enquanto Bosco alcançava o contrato, o alto prelado olhou para ele com seus olhos úmidos e escuros como carvão. "Podemos até ter mais trabalho para você."

Bosco assinou o contrato apressadamente e sentiu o formigamento da magia Orzhov junto com o frisson da oportunidade.

"Ali", sussurrou Bosco, apontando para um candelabro na parede. "Puxe-o."

"Tem certeza de que isso não vai disparar um alarme?", perguntou Drovo.

"Não. Eu disse a você, uma vez que passássemos pelos guardas, tudo seria presa fácil."

"É bom você ter certeza." Drovo esticou-se e, com algum esforço, puxou o candelabro. Fez um som de moagem seguido de um clique mecânico, enquanto uma seção do painel de madeira saltava para fora.

"É isso", sussurrou Bosco animado. Ele deu uma olhada pelo corredor iluminado por velas, certificando-se de que ninguém os vira — especialmente o trul de Jozica. "Vá por ali."

Drovo puxou o painel de carvalho para revelar uma pequena escadaria de pedra serpenteando para baixo, em direção à escuridão.

Passagem do Ladino | Arte de Christine Choi
Passagem do Ladino | Arte de Christine Choi

"Rápido", sibilou Bosco, olhando para os dois lados enquanto seguia Drovo escada abaixo, trancando o painel atrás deles e então acendendo uma pequena tocha com um pedaço de pederneira e aço.

"Continue andando", disse Bosco, enquanto a tocha crepitava e estalava. "É no fundo da escada."

Os dois desceram as escadas, sentindo o ar esfriar à medida que se aproximavam do fundo. Um corredor longo e estreito, largo o suficiente apenas para passar uma pessoa por vez, estendia-se além da luz da tocha. Drovo olhou para trás nervosamente.

"Continue. Tem que ser aqui embaixo." Bosco empurrou o amigo para frente.

Eles caminharam pelo corredor gélido. O ar cheirava a terra e mofo; a luz da tocha animava suas sombras em espectros dançantes. À frente, podiam ver o corredor abrir-se em um mausoléu circular, um enorme símbolo da guilda Orzhov estampado no chão em azulejos de ônix e marfim. A ponta de cada extremidade do símbolo da guilda abrigava uma porta pesada reforçada com ferro. Os dois caminharam para o centro do mausoléu e olharam para as portas.

"Qual delas é?", perguntou Drovo.

Bosco apontou para a que ficava na diagonal da entrada. "Aquela ali."

Caminharam até a porta grande. "Está trancada. Você tem a chave?"

Bosco sorriu e ergueu uma pesada chave de ferro. "Eu disse que estava preparado."

Drovo afastou-se enquanto Bosco lhe entregava a tocha e inseria a chave na fechadura. Ele deu uma volta, e as engrenagens gemeram um pouco enquanto o trinco se abria.

Bosco abriu a porta e tirou outra tocha de sua mochila. "Vá verificar. Vou me certificar de que não fomos seguidos."

Drovo entrou no interior do túmulo; um par de sarcófagos de pedra estava diante dele, suas tampas esculpidas com o que pareciam ser nobres Orzhov. Haveria bastante tesouro para ambos dentro desses túmulos. Passar pelas tampas sem fazer muito barulho exigiria um trabalho cuidadoso, mas poderia ser feito. Drovo tirou a mochila dos ombros. "Teremos que encontrar uma maneira de deslizar essas tampas com cuidado, Bosco. Trouxe alguns pés-de-cabra e um pouco de corda. Talvez possamos amarrá-las naqueles anéis no teto. Ei, você está...?" Drovo virou-se para ver a porta fechar e a fechadura deslizar com um estalo ecoante.

Ele correu para a porta. "Ei! Bosco, que diabos você está fazendo?"

Do outro lado, Drovo podia ouvir o som abafado da voz de seu amigo. "Sinto muito, Drovo. Você estava certo, cinco séculos é tempo demais."

Um som de sibilado veio de trás de Drovo. Ele girou para ver fumaça preta jorrando debaixo da tampa de um sarcófago. A fumaça parecia tinta pingada em água límpida, redemoinhando e tombando no ar da sala e preenchendo-a com um cheiro avassalador dos pântanos úmidos nas áreas cobertas de vegetação do Sexto Distrito. Era como se a fumaça estivesse sendo puxada diretamente do pântano fétido.

A fumaça preta começara a formar-se em grandes faixas pendentes de pano esfarrapado, cercadas por um círculo de máscaras que giravam ao redor de uma figura esquelética. Drovo engasgou com o fedor enquanto corria para sua mochila e arrancava um de seus pés-de-cabra em pânico. Ao puxá-lo, parte de sua mochila rasgou e espalhou ferramentas pelo chão de pedra. As máscaras giravam ao redor da figura encapuzada mais rápido, criando um som de lamento conforme um rosto esquelético sombrio se manifestava. Ele gotejava água fétida e focava suas órbitas sem olhos em Drovo, que golpeava a porta como uma fera enjaulada.

"O que é isto?", o espectro das criptas sibilou em meio ao barulho das máscaras lamentando. As mãos de Drovo sangravam; o pé-de-cabra escorregou de seus dedos e tilintou no chão.

"Sangue." A aparição arquejou com prazer palpável enquanto Drovo buscava a barra com suas mãos ensanguentadas. "Sangue."

Espectro das Criptas | Arte de Chris Rahn
Espectro das Criptas | Arte de Chris Rahn

"Ele foi alimentado?", perguntou o alto prelado.

"Conforme o senhor instruiu, Alto Prelado", respondeu Bosco.

O alto prelado deslizou um pequeno saco de couro com moedas pela mesa de ardósia para Bosco. "Você provou ser muito útil. Haverá mais trabalho para você no futuro."

"Obrigado, Alto Prelado." Bosco pegou o saco de moedas. O peso era maior do que qualquer coisa que ele já tivesse segurado. Ao sair, arriscou um olhar para Jozica, que estava impassível ao lado do alto prelado. Para surpresa de Bosco, ele não sentia mais medo. Ele virou-se e fechou a porta grande atrás de si com um sorriso sarcástico no rosto.

"Eu não achei que ele fosse capaz", disse Jozica.

"Depois de tempo suficiente, passei a saber o que jaz dentro da alma de uma pessoa. Aquele rapaz tem a ambição escrita por todo o corpo."

Experimento Um

A entrada para o laboratório era um alçapão despretensioso em uma parede úmida e coberta de musgo. Liana teve que voltar sobre seus passos duas vezes para encontrá-lo e, quando bateu à porta, ela se abriu com um rangido.

"Olá?", disse ela.

Ela conferiu o endereço novamente, respirou fundo o ar mofado e entrou.

À medida que seus olhos se ajustavam, percebeu que não estava completamente escuro, mas fracamente iluminado por globos verdes bioluminescentes pendurados no teto. Seus passos ecoavam na pedra fria.

Das profundezas do laboratório vinha um cantarolar sem rumo.

"Olá?", disse ela novamente. "Meu nome é Liana. Devo ser a aprendiz do Mestre Ozbolt. Ele está aqui?"

O cantarolar parou.

"Liana", disse uma voz rouca de outro cômodo. "É um nome adorável."

Ela franziu a testa, mas disse: "Obrigada."

"Ozbolt, por outro lado", disse a voz. "Esse é um pouco estranho. Quase desagradável, você não acha?"

Um homem franzino e desgrenhado, um humano comum pelas aparências, entrou na sala, limpando as mãos em um pano de aspecto esponjoso.

"Chame-me de Florin", disse ele, sorrindo debaixo de um par impressionante de sobrancelhas, e toda semelhança de ameaça evaporou. "Meu primeiro e, de longe, mais acolhedor nome."

Florin piscou e olhou ao redor. "Fantasmas e deuses, sinto muito. Está pavoroso aqui dentro." Ele tocou em uma mancha de musgo na parede, e os globos pendurados no teto brilharam e clarearam até que a luz que projetavam parecesse quase solar.

"Um prazer conhecê-lo, Mestre Florin", disse ela.

"Mestre", ele bufou. "Oh, se você insiste."

Era um homem mais velho, talvez da idade que seu pai teria, com cabelos ralos e queixo por fazer. Para um mestre biomante Simic, envelhecer naturalmente poderia ser chamado de excêntrico, embora não parecesse estender-se a nada realmente extravagante como uma corcunda ou um mancar.

"Imagino que o senhor não aceite muitos aprendizes", disse Liana.

"Quase nenhum", disse ele. "Não posso dizer que sou muito requisitado, e os oradores também não pensam muito de mim." Ele fungou. "Presumivelmente, eu sou seu castigo por algo."

"De forma alguma", disse ela. "Eu disse a eles que estava mais interessada em uma filosofia compatível do que em qualquer campo de pesquisa em particular, e o Mestre Murat indicou o seu nome."

"Filosofia", disse ele, com os olhos brilhando. "Agora, isso é outra questão inteiramente diferente. Conte-me sobre a sua."

"O poder que exercemos sobre a vida é assombroso", disse ela. "E temos a responsabilidade de criar mais com ele do que curiosidades biológicas. Podemos fazer coisas, como seu sistema de iluminação aqui, que podem melhorar a vida das pessoas. Podemos dar a elas tratamentos médicos diferentes de quaisquer outros. Podemos tornar a vida nesta cidade melhor, para todos."

"Ahh", disse ele. "Ideias perigosas. Muito mais simples juntar alguns animais e ver o que sai. Muito mais seguro. Isso faz você ser nomeado, lhe dá publicidade. Consegue bolsas de pesquisa."

Ele sorriu.

"Mas se você não está aqui por essas coisas — se você se importa mais com sua filosofia do que com sua carreira — então talvez, apenas talvez, você possa fazer uma diferença real no mundo."

"Nesse caso", disse ela. "Acho que estou exatamente onde deveria estar."

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A pata dianteira esquerda do rato estava faltando abaixo do cotovelo, mas isso não parecia diminuir sua velocidade. Por fim, a mão enluvada de Liana fechou-se sobre ele, e ela o ergueu do cercado, ignorando seus guinchos.

"O Sujeito 23 está pronto", disse ela. O Sujeito 23 mexeu os bigodes e soltou um som agudo para ela.

"Prossiga", disse Florin.

Liana mergulhou um cotonete no frasco de lodo à sua frente e cuidadosamente o esfregou no toco do membro ausente do rato. Segurou o animal para que Florin pudesse enrolar uma bandagem ao redor do apêndice coberto de lodo, então ela o colocou em um novo recinto solitário.

Não era um trabalho difícil, mas era um pouco estressante. Ela não perguntara ao Mestre Florin onde ele encontrara tantos ratos feridos, mas suspeitava que tivesse algo a ver com o técnico de laboratório Izzet que passava por lá a cada uma ou duas semanas.

"Este é o último deste lote", disse ela, retirando as luvas.

"Excelente!", disse Florin. "Acho que estamos progredindo com isso."

Liana assentiu e terminou de tirar as luvas. "Isso" era uma terapia inovadora de substituição de membros. Ela ouvira falar de esforços para enxertar novos membros, alguns deles bem-sucedidos, mas isto era diferente. Eles estavam usando um lodo mimético para ler e, por fim, recriar o padrão do membro ausente. Parecia-lhe perigosamente próximo do uso proibido de citoplastos para transferir material genético, mas o Mestre Florin garantira que o lodo em si não estava contribuindo nem transferindo nada, e isso os deixava livres para prosseguir.

Até agora, na maioria das vezes, apenas tinham obtido ratos com gosma, e alguns haviam morrido de complicações. Um deles havia desenvolvido uma asa; marcaram aquele lote para testes adicionais, embora cheirasse a contaminação mais do que qualquer outra coisa.

Mestre Florin tirou suas próprias luvas, lavou as mãos em uma bacia e fez sinal para Liana segui-lo para a outra sala. Ela sabia o que aquilo significava.

Poucos dias depois de iniciar o aprendizado, Liana apontara o hábito dele de se envolver em debates filosóficos logo após uma rodada de experimentação prática.

"Claro", respondera ele. "O problema da filosofia é que é fácil tornar-se abstrata demais. Sempre suje as mãos primeiro, para lembrá-la de que alguém tem que transformar suas ideias em ação."

"Por que fazemos o que fazemos?", ele perguntou a ela agora.

Ela respirou fundo antes de responder. Aprendera cedo que uma resposta mal ponderada poderia levar a conversa por um caminho improdutivo ou, pior, resultar em dever de casa. Uma resposta deliberadamente ignorante, por outro lado, poderia fazer maravilhas para esclarecer a questão.

"O Édito das Profundezas afirma claramente—"

"Fah", disse Florin com um gesto de desdém. "Eu já conheço a resposta da oradora principal para a pergunta. Quero ouvir a sua."

Filosofia pessoal, então. Bem mais interessante.

"Eu diria que a Simic, como guilda, opera a partir do desejo de entender e proteger a vida natural", disse ela. "O senhor e eu, mais do que a maioria, temos consciência de que a vida natural inclui a vida senciente."

"Com certeza", disse ele. "Mas o que, exatamente, significa proteger eticamente a vida senciente? Os tubarões e os crocodilos não têm planos próprios; o mesmo não se pode dizer das pessoas."

Liana franziu a testa. "Verdade. Então... suponho que o melhor que podemos fazer é tentar aliviar seus fardos, dar a elas a chance de viver vidas melhores. Não podemos mexer com as pessoas da mesma maneira que fazemos com os animais."

"Não podemos mexer com outras pessoas", disse Florin.

Ele respirou fundo, sempre um sinal de que estava prestes a começar uma história.

"Conheci uma quimista Izzet uma vez. Uma mulher muito inteligente. Ela tinha uma dúzia de ideias brilhantes, qualquer uma das quais ela poderia ter passado uma vida inteira desenvolvendo. Naturalmente, ela não conseguiu escolher apenas uma, então, em vez disso, construiu... bem, ela o chamou de 'cronoacelerador neural'. Típico.

"Ela passou anos construindo-o e, quando finalmente conseguiu fazê-lo funcionar, insistiu em testá-lo em si mesma. Não foi por um ataque súbito de ética; os Izzet testam seus dispositivos em goblins infelizes o tempo todo. Foi porque os pensamentos que ela estava mais interessada em acelerar eram os seus próprios, e ela não podia esperar para começar.

"Poucas horas depois, ela estava morta. Cérebro completamente frito. Mas, naquele tempo, ela tomou notas, notas copiosas, sobre seus pensamentos acelerados. Encontraram esquemas para sistemas de energia revolucionários, tratados sobre teoria experimental e plantas para dispositivos cujo propósito ainda estão tentando descobrir. Em uma tarde, ela realizara o equivalente a vidas inteiras de trabalho acadêmico.

"Minha pergunta para você é esta: ela fez a coisa certa?"

A ideia de jogar fora toda a sua vida de uma só vez fez Liana estremecer. Mas os benefícios...

"Eu não culparia ninguém que não quisesse fazê-lo", disse Liana. "Mas sim, acho que ela fez a coisa certa."

"Bom", disse Florin. "Eu também acho. Mas imagino que o sucesso dela não tenha sido exatamente como ela imaginara. Essa é a verdadeira lição da história dela: quando você busca melhorar o mundo ao seu redor, começa melhorando a si mesmo. E quando você se melhora, pode mudar de maneiras que seu eu anterior acharia surpreendentes. Até mesmo perturbadoras."

Ele inclinou-se para frente em sua cadeira e, naquele momento, ela viu algo alienígena e aterrorizante em seus olhos.

"Você está preparada para isso?"

"Eu... eu acho que sim", disse Liana.

"Bom!", disse ele, e o momento passou, e ele era novamente um velho excêntrico e inofensivo. "Isso é o suficiente por hoje, eu acho. Talvez você possa passar a tarde com seu amigo Jovan."

"O que... o que o faz pensar que eu vou vê-lo?"

Mestre Florin revirou os olhos.

"Poderes biomânticos", disse ele, balançando os dedos. "Isso, e a maneira como você tem falado dele ultimamente."

Liana corou. "É tão óbvio assim?"

O Mestre apenas revirou os olhos novamente e a expulsou do laboratório.

No dia seguinte, o enxerto de lodo do Sujeito 23 começou a crescer. Em uma semana, o rato estava correndo em quatro patas — três peludas, uma gelatinosa. Quando Liana mostrou ao Mestre Florin, ele sorriu com um brilho maior do que ela jamais vira.

"Nesse caso", disse ele, "eu diria que estamos finalmente prontos para começar."

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Na verdade, seu anúncio enigmático fora um pouco prematuro. Foram necessários mais vários dias de testes e ajustes antes que o Mestre Florin estivesse satisfeito em prosseguir com o projeto secreto que ele chamava de "Experimento Um". E mesmo assim, disse a Liana para tirar alguns dias de folga enquanto ele preparava o laboratório adequadamente.

Ela retornou ao laboratório em uma manhã cinzenta e chuvosa, com seu manto mal protegendo-a da umidade e do frio.

Lá dentro, estava estranhamente parecido com seu primeiro dia no laboratório: escuro e úmido, sem ninguém à vista. Pendurou seu manto pingando perto da porta.

"Mestre Florin?", chamou ela.

Havia luzes acesas na sala de espécimes. O laboratório estava assim no dia em que ela chegou, mas agora não conseguia afastar a sensação de que aquilo significava que algo estava muito errado. Caminhou em direção às luzes.

A sala de espécimes parecia muito com o que era quando ela partiu: fileiras de gaiolas, mesas com equipamentos e vários tanques de lodo cultivando a mistura para substituição de órgãos.

Então o lodo em um dos tanques... moveu-se.

O chão estava escorregadio, e ela plantou os pés com cuidado enquanto caminhava até o tanque. Espiou pela borda, pronta para se afastar se ele se movesse novamente.

Havia formas e cores no lodo, impurezas que não deveriam estar lá. Uma nuvem avermelhada, um fuso escuro...

Costelas. Costelas humanas.

Então o lodo deu um solavanco para cima, nauseantemente rápido. Ela se jogou para trás no chão escorregadio enquanto uma forma escura surgia do tanque.

"Florin!", gritou ela. "O senhor está aqui?"

Então a forma abriu os olhos, e ela entendeu. Mestre Florin estava aqui, ou estivera.

O lodo assumira sua forma, assim como assumira a forma dos membros ausentes dos ratos. Recriara a cúpula de sua cabeça, gelatinosa, sem cabelos, e dois braços translúcidos erguiam seu volume acima de uma massa emaranhada de lodo. Através da superfície da pele da coisa, ela podia ver ossos e uma rede de órgãos em dissolução. Mas o rosto... o rosto era inconfundivelmente o dele, e os olhos estavam brilhantes como sempre.

"Olá, Liana", disse a coisa que fora Florin Ozbolt. Sua voz ainda mantinha um timbre rouco.

Ela rastejou para trás, encontrou terreno mais seco e levantou-se apressadamente ao lado da porta.

"O que o senhor fez?"

"O que sempre fiz", disse a coisa-lodo. "Eu me aperfeiçoei."

"Melhor? Como isso é melhor?"

Ele riu, um som familiar tornado horrível na boca de um monte de lodo.

"Posso pensar melhor agora", disse ele. "Minhas glândulas se foram. Posso raspar sustento do chão enquanto me movo. Pense nisso! Sem fome, sem adrenalina, sem luxúria, sem medo."

A coisa deslizava lentamente para frente, com os olhos fixos nela, tentáculos de lodo contorcendo-se sob ela.

"Já posso ver como meus experimentos eram falhos. Eu estava tentando substituir órgãos depois que eles eram perdidos. Agora vejo que o verdadeiro problema é a fragilidade e a tolice de nossos órgãos naturais, incluindo o cérebro. Especialmente o cérebro."

"Isso é doentio", disse ela. "O senhor precisa de ajuda. Falaremos com o conselho. Eles podem curá-lo."

"Eu estou curado!", gritou ele. "Eu lhe disse, minha querida. Para melhorar o mundo, melhore a si mesmo. E quando você se melhora, as mudanças podem surpreendê-la..."

"Até mesmo perturbá-la", disse ela. Ela estremeceu.

"Você queria tornar a vida melhor", disse ele. "Eu nunca questionei sua dedicação. Venha, minha querida. Para dentro do tanque. Refaça-se, e nós refaremos este mundo quebrado."

Ele deu um solavanco para frente, estendendo a mão para ela.

Ela virou-se e tropeçou pelo laboratório escurecido, passou por seu manto ainda úmido e saiu pela porta, rua abaixo, sem se importar com a chuva.

Não ousou olhar para trás.

Fblthp

O ruído que escapou dos lábios de Fblthp poderia ser melhor descrito como um ganido. Ele não falava nenhum idioma familiar aos cidadãos de Ravnica, mas aquele som agonizante de desespero era instantaneamente reconhecível. Infelizmente, o beco em que Fblthp se encontrava parecia deserto, exceto por quem causara o ganido em primeiro lugar.

Punhos calejados agarraram o minúsculo homúnculo pelos braços e o ergueram até que ele ficasse cara a olho com um humano franzino. Com piercings e um ar severo, o rosto do humano retorceu-se em um desdém. Fblthp silenciou e começou a tremer instintivamente. Foi a vez em que ele sentiu mais medo em toda a sua vida. Foi também a maior altura em que ele esteve do chão. Uma risada, como o raspar de botas em paralelepípedos, emergiu de seu captor. Enfiando Fblthp debaixo do braço como um mensageiro faria com uma missiva, o humano esgueirou-se em direção a um bairro conhecido por ser controlado pelo Culto de Rakdos. Não era assim que as coisas deveriam acontecer.

Fblthp começou a ganir novamente.

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Fblthp era imensamente grato por seu serviço ao Senado Azorius raramente exigir que ele deixasse a segurança e a relativa simplicidade do Jardim dos Magistrados. Suas tarefas também eram relativamente simples: remover detritos das amplas passarelas de pedestres que ligavam as várias fontes e canais, polir as placas inferiores que adornavam as estátuas de legisladores notáveis e alertar os oficiais de segurança sobre qualquer coisa preocupante. Como as leis proibiam qualquer coisa preocupante nos terrenos, a última tarefa raramente fora necessária.

Como muitos a serviço do senado, Fblthp desfrutava de proteções básicas e abonos apropriados à sua posição, conforme previsto em lei. Na verdade, ele se acostumara bastante à maneira como era tratado por seus mestres — ou seja, a ser ignorado. Ele recebia comida e uma espécie de casa despretensiosa. Trabalhar com a flora no jardim às vezes agravava suas alergias, então o senado também fornecia uma solução para evitar que seu olho coçasse demais. Era uma existência segura e maravilhosa.

Era incomum que membros de outras guildas visitassem o Jardim dos Magistrados, e a aparição de estranhos geralmente assustava Fblthp. Os druidas cobertos de folhas dos Selesnya não eram tão ruins, embora tendessem a acariciá-lo enquanto proferiam orações indecifráveis. Pesquisadores Simic às vezes murmuravam entre si sobre cruzar Fblthp com um morcego ou uma anêmona-do-mar. Nesse ponto, Fblthp geralmente se lembrava de alguma tarefa esquecida do outro lado do jardim e saía disparado.

Um dia, enquanto Fblthp caminhava pela extremidade oeste do jardim, recolhendo restos de comida descartados e outros lixos, foi abordado por uma mulher humana. Ele reconheceu a figura imponente por sua vestimenta — armadura com sigilos e adornos em azul-cobalto. Ela era uma prendedora. Isso era, de fato, estranho. A maioria dos prendedores que visitavam o jardim o ignorava completamente, muitas vezes chutando-o acidentalmente se ele estivesse em seu caminho. Ela se inclinou e olhou severamente para o olho de Fblthp.

"Você é Thbltpth?", perguntou ela, a última palavra trazendo uma torrente de saliva sobre o rosto do homúnculo.

Fblthp piscou duas vezes e balançou levemente a cabeça.

"Sou a Prendedora Parisha. Sirvo no Nono Distrito. Conforme a Provisão IV.126.3 do Édito de Isperia, exijo sua assistência. Por favor, venha comigo."

Ela ofereceu a mão. Fblthp ganiu.

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Fblthp nunca estivera dentro de nenhuma das três majestosas colunas que compunham Nova Prahv. Eram impossivelmente altas, reluzentes e imaculadas. Sem uma palavra, ele foi depositado em uma subcâmara austera no primeiro andar por um vedalken esguio. Piscando lentamente, Fblthp absorveu nervosamente seu novo ambiente; as paredes nuas e os móveis simples que eram altos demais para serem úteis. Então ele ficou ali parado e esperou.

Eventualmente, Parisha abriu a porta de madeira e entrou. Determinada e eficiente, mas não indelicada, ela se sentou e colocou dois pergaminhos sobre a mesa. Olhou expectante para Fblthp e relanceou para a cadeira oposta. Percebendo a impossibilidade de seu pedido silencioso, ela se levantou e ergueu Fblthp até a cadeira. Foi a maior altura em que ele esteve do chão.

"Este", proclamou Parisha enquanto desenrolava o primeiro pergaminho, "é Vadax Gor. Há meses ele se associa a um certo estabelecimento Rakdos. Um 'clube de diversão', como acredito que seja conhecido." Parisha cuspiu a frase com desgosto. Fblthp estremeceu levemente diante da imagem do estranho humano. Seu rosto estava devastado por cicatrizes, piercings e tatuagens. Farrapos esfarrapados que mal qualificavam-se como roupas pendiam frouxamente de sua estrutura desnutrida. Fblthp nunca encontrara nada parecido com ele, e desejava sinceramente não encontrar.

"Vadax Gor aprecia todo tipo de depravação", continuou Parisha, "mas ultimamente seus gostos tornaram-se perversamente especializados. Ele não se satisfaz mais em manter sua insensatez contida no culto. Ele é suspeito no desaparecimento de dois de nossos cidadãos. Com sua ajuda, não haverá um terceiro. Os investigadores ainda não encontraram evidências diretas do envolvimento de Gor nos sequestros. Precisamos pegá-lo em flagrante."

O olho de Fblthp arregalou-se, mesmo para os padrões dele. Ele se perguntou brevemente se conseguiria chegar à porta antes que Parisha o pegasse, mas sabia que isso era tolice. Ele não teria permissão para retornar às suas tarefas se desobedecesse a uma prendedora. Além disso, ele ainda estava muito alto naquela cadeira. Não tinha certeza se conseguiria pular sem se machucar. Sem outras opções, Fblthp ganiu baixinho.

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"Os dois sequestros anteriores ocorreram a dois quarteirões desta oficina de couro", disse Parisha, apontando para o mapa. "Acreditamos que o proprietário daquela oficina esteja envolvido de alguma forma. Talvez ele esteja sinalizando para Gor quando um alvo provável aparece. Você deve ir à oficina dele para entregar estes formulários de impostos. Eles precisarão ser preenchidos imediatamente e em triplicata. Se nossas suspeitas estiverem corretas, Gor agirá após sua partida."

Se ela tivesse parado por aí, Fblthp certamente teria fugido, tarefas amadas no jardim ou não. Mas seus olhos suavizaram-se momentaneamente e ela continuou. "Não tema, pequeno. Meus agentes e eu estaremos posicionados por toda a área. Nunca o perderemos de vista. Você não correrá perigo. Gor não encostará a mão em você. Você estará de volta ao Jardim dos Magistrados em alguns dias. O Édito de Isperia não me permite falhar com você." Ela sorriu levemente.

Fblthp não tinha certeza se acreditava nisso, mas parou de tremer e assentiu lentamente.

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Fblthp sempre odiara multidões. Ele se deslocava apressado pela movimentada via pública de Ravnica, seu olho dardejando rapidamente de transeunte em transeunte. Ninguém lhe dava muita atenção, o que ele gostava. Ninguém fazia qualquer esforço para desviar dele também. Ele quase foi chutado meia dúzia de vezes antes de chegar ao seu destino.

Totalmente Perdido | Arte de David Palumbo
Totalmente Perdido | Arte de David Palumbo

O artesão de couro e proprietário era humano, mas apenas tecnicamente. Corpulento como um ogro e duas vezes mais feio, ele se agigantava sobre Fblthp e grunhia. Fblthp apresentou humildemente sua bolsa. O homem grunhiu novamente e a abriu. Pedaços de comida caíram de sua barba desgrenhada enquanto ele começava a ler — um feito impressionante, considerando tudo. Um barulho trovejante ecoou do homem enquanto ele se dirigia a um depósito nos fundos. Fblthp piscou e olhou para a comida no chão com desconfiança.

Depois de um tempo, o proprietário emergiu e empurrou os formulários preenchidos na direção de Fblthp. Fblthp curvou-se e virou-se para sair. O homem trovejou novamente, mas Fblthp não tinha certeza do porquê. Conforme instruído, ele virou em direção aos becos atrás da oficina. Parisha, disfarçada de cliente em um mercado de frutas próximo, fez breve contato visual com o homúnculo enquanto ele desaparecia no beco. Isso o fez sentir-se melhor.

Fblthp caminhou pelo beco, lentamente, mas com confiança crescente. Imaginou que Parisha e seus camaradas estariam fazendo as prisões a qualquer minuto, e ele poderia voltar para o jardim. Pensava nas águas suavemente fluindo dos canais do jardim quando um terrível som de batida ressoou atrás dele. Ele virou-se bruscamente, esperando ver Parisha ou um dos prendedores. Em vez disso, a forma pavorosa de Vadax Gor emergiu das sombras. Fblthp deixou cair sua bolsa e ganiu.

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A confiança e a velocidade de Gor cresceram enquanto ele deixava a cena do crime para trás. Fblthp fechou o olho, não querendo ver o destino que o aguardava. Sentiu Gor virar à esquerda em um cruzamento. Depois à direita. E então, sem aviso, Gor parou. Fblthp abriu o olho levemente com o solavanco. Contorceu-se para olhar Gor, agora paralisado. Abriu o olho um pouco mais, sem compreender o que estava acontecendo.

Parisha aproximou-se deles por trás em disparada. "Vadax Gor", gritou ela entre respirações pesadas, "você está preso." Ao alcançá-los, ela soltou Fblthp do aperto do detido. Fblthp notou um brilho azul envolvendo Gor, que permanecia imóvel.

"Minhas desculpas, pequeno", murmurou Parisha. "Aquele artesão de couro deve ter suspeitado de algo e atacou um dos meus agentes antes que pudéssemos começar nossa perseguição. Foi um pequeno atraso, mas você não correu perigo." Eles foram rapidamente acompanhados por vários outros prendedores, que arrastaram o peso morto conhecido como Vadax Gor de volta pelo beco em direção à praça.

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Fblthp estava em uma antecâmara no sexto andar da Coluna Lyev. Foi a maior altura em que ele esteve do chão. Parisha estava ao seu lado. Silenciosamente, ela se virou, curvou-se levemente pela cintura e assentiu para ele. Uma porta de mármore que Fblthp não percebera estar ali abriu-se em dobradiças invisíveis, e um oficial baixo e de vestes longas entrou na sala.

Parisha saudou. "Senador", ela o cumprimentou reverentemente. Fblthp piscou.

"Prendedora. Parabéns por uma missão bem-sucedida. Este é aquele que você mencionou em seu relatório?" Ele olhou para um pedaço de pergaminho. "Cthillcip?"

"Sim, Senador."

"Muito bem." O burocrata idoso voltou seu olhar para o homúnculo de trinta centímetros de altura. "Conforme a Provisão III.875.2b do Édito de Isperia, por favor, aceite meus agradecimentos em nome do senado e do povo ordeiro de Ravnica. Embora a recompensa monetária não seja permitida, seus descendentes podem peticionar ao senado para criar uma placa relatando seus feitos honrosos após sua morte." Ele virou-se e saiu da sala.

Parisha fez sinal para a saída sul da sala. "Venha, vamos devolvê-lo às suas tarefas." Fblthp praticamente saltitou até a porta, ansioso para ver o Jardim novamente.

"Pelo menos, até a próxima vez."

Fblthp ganiu.

O Sepultamento, Parte 2

Para estar perto dos Deuses Antigos, você deve ir sob a terra. Lá você ouvirá suas vozes e sentirá seu poder. Alguns podem sussurrar palavras sagradas para você, alguns podem lhe dar visões, alguns podem enchê-lo de medo, mas é a maneira deles de torná-lo inteiro, de torná-lo uma pessoa real que conhece o próprio coração. Não tema.

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Domri Rade estava sepultado na terra.

Depois que Domri foi coberto por símbolos mágicos e uma mortalha de pele de animal, o xamã Sabast o deitou na cova cerimonial. Enquanto Domri sentia a terra ser empilhada sobre ele, ouviu Sabast iniciar um cântico de proteção. Isso mantinha o corpo de Domri vivo, mas sua mente estava desprotegida, exposta e sozinha.

O som tornava-se abafado a cada pá cheia de terra. O frio lentamente se infiltrava em seu corpo. O peso tornava mais difícil se mover. Então, ele estava em total escuridão e silêncio. A bravata adolescente o sustentou nos primeiros momentos; ele sabia que tudo o que precisava fazer era suportar a noite e, pela manhã, Sabast estaria lá para desenterrá-lo.

Mago de Guilda de Skarrg | Arte de Aleksi Briclot
Mago de Guilda de Skarrg | Arte de Aleksi Briclot

Tudo o que ele precisava fazer era resistir.

Mas qualquer medida que ele tivesse da passagem do tempo começou gradualmente a escapar-lhe. Uma eternidade pareceu passar enquanto sua mente esgotava sistematicamente suas defesas, uma por uma. Eventualmente, acabaram-se as coisas para ocupar seus pensamentos.

Então as camadas mais profundas começaram a emergir. Camadas mais sombrias.

Foram minutos? Foram horas? Talvez Sabast tenha sido pego por um maaka no caminho de volta para o acampamento e ninguém saberá onde estou? O feitiço de proteção vai acabar? Vou sufocar? Talvez tenha havido um ataque Rakdos maciço contra minha tribo e todos tenham sido aniquilados.

Talvez eu estivesse sempre sozinho.

Talvez eu vá morrer aqui.

Ele sabia que os Deuses Antigos eram um mito — algo em que os anciãos acreditavam. Mas agora, conforme rachaduras de incerteza começavam a aparecer em sua armadura mental, ele sentia sua mente correndo para agarrar-se a eles, para torná-los reais, para implorar-lhes por libertação desse medo. Seus pensamentos e emoções corriam como ratos em uma armadilha, alimentando-se uns dos outros até que sua mente se desligou e o instinto cego assumiu o controle. Domri lutava como um homem se afogando, mas seu corpo estava preso na terra. Congelado. Imóvel.

Um pânico avassalador se instalou... e então algo começou a assumir o controle. Uma pressão vinda de dentro surgiu através de seu corpo, enviando um som através de sua mente como um coro de trombetas que ameaçava despedaçá-lo. Sua espinha pareceu transformar-se em fogo líquido e sua cabeça encheu-se de luz e então... aconteceu. Ele foi disparado para o Multiverso para contemplar o vazio infinito das Eternidades Cegas. Sua vastidão era incompreensível para seus novos olhos — olhos que nunca mais seriam fechados.

Todos os planos do Multiverso estendiam-se diante dele como facetas de uma joia cintilante.

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Domri acordou no que parecia uma tenda de vapor Gruul. Levantou-se do chão esponjoso coberto de folhas secas. As coisas cheiravam diferente. Sentou-se, esfregou os olhos e viu um mundo nunca antes visto por um Gruul.

Sua mente mal conseguia processar a falta de edifícios enquanto ele se levantava cambaleante — sem pedra, sem escombros, nada. Ele piscou e balançou a cabeça, mas a cena não mudou. Edifícios não apareceram magicamente. Ele estava no coração de uma floresta tropical primordial; árvores maciças cobertas de musgos exuberantes, samambaias e bromélias o cercavam. Plantas que ele nunca vira antes irrompiam em um festival de vida ao seu redor. Caminhou atordoado até uma abertura entre as árvores e ali contemplou um vale profundo coberto pela copa verde infinita de uma selva vasta lá embaixo. Nem um edifício ou ruína à vista.

Floresta | Arte de Zoltan Boros e Gabor Szikszai
Floresta | Arte de Zoltan Boros e Gabor Szikszai

"Krokt." A palavra escapou de sua boca enquanto ele olhava em total espanto para um horizonte fervilhando com crescimento desenfreado. Um sentimento começou a brotar dentro dele, como se seus ancestrais Gruul estivessem entoando cânticos de exultação. Ele estava olhando para a terra de suas esperanças e sonhos — uma terra sem muros, estruturas ou os malditos Azorius e seus livros de anotações. Aquilo era vida bruta expressando liberdade absoluta, e ele estava no meio dela. Uma ululação de alguma parte primal do ser de Domri irrompeu dele em resposta à alegria de seus ancestrais.

Ele gritou a plenos pulmões: "Iiiiiiiirrrrrrrraaaaaaa!"

Talvez não tenha sido uma ideia tão boa.

Ouviu um urro desconhecido sacudir cada osso de seu corpo. Passando por ele, surgiram três elfos em vestes estranhas, cada um parecendo mais surpreso e preocupado que o anterior enquanto fugiam.

Sábios da Anima | Arte de Kev Walker
Sábios da Anima | Arte de Kev Walker

O primeiro elfo o encarou feio. "Idiota!"

O segundo elfo passou correndo. "Idiota!"

Enquanto passava disparada por ele, a última elfa disse: "Corra, seu idiota!"

Ele pôde sentir a terra tremendo sob seus pés. Algo grande atravessou as árvores, e seus troncos e raízes gemeram ao quebrar. Domri entrou em ação. Baixou a cabeça e correu atrás dos pés incrivelmente ágeis da elfa enquanto ela dardejava pela pista de obstáculos de videiras penduradas e galhos caídos.

Árvores caíam ao seu redor, e ele rapidamente perdeu os elfos de vista enquanto corria cegamente pelo mar infinito de samambaias e folhas. Ao passar por uma parede de videiras, duas mãos surgiram, agarraram-no e puxaram-no para dentro de uma caverna escura. Ele podia ouvir a respiração dos elfos.

"Não diga uma palavra", sussurrou um dos elfos.

"Idiota", disse outro.

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"Eu não quero voltar", disse Domri aos seus três companheiros elfos, que olhavam para ele com uma mistura de perplexidade e fascínio. "Este lugar é incrível."

Os três elfos sentavam-se e olhavam para aquele garoto desgrenhado, coberto de sujeira, cinzas e símbolos em ocre de alguma tribo estranha desconhecida para eles, balbuciando sobre cruzar um grande vazio de outro reino. O ancião deles, Hasal, falava com o estranho enquanto os dois elfos mais jovens o observavam curiosos à distância.

"Ele é louco", sussurrou Maklo para Elishta.

"Ele tem poder. Eu posso sentir. Talvez Cylia o tenha enviado para nos ajudar a rastrear os gargantuanos."

"Acho que ele é apenas mais um batedor que se perdeu na floresta e comeu spinberries demais."

Hasal sabia que o humano não era de nenhuma tribo de que tivesse notícia nas proximidades. A maioria dos viajantes humanos — fossem caçadores-tambor ou simples comerciantes — movia-se em grupos pela selva, e ninguém ia sozinho tão longe. Mesmo rastreadores de deuses de Cylia, como eles, tomavam cuidado para não se separarem tão fundo na floresta. Este humano, decidiu Hasal, estava fora de si.

Hasal fazia perguntas ao menino calmamente, tentando dar sentido às suas afirmações bizarras, mas quanto mais perguntas fazia, mais Domri surgia com detalhes selvagens de um mundo que chamava de Ravnica.

Domri sentava-se em uma alegria estupefata enquanto olhava para a selva exuberante e infinita, enquanto os elfos conferiam entre si. Após um momento de sussurros e olhares por cima do ombro, Hasal disse: "Nossa anima desejará falar com você. Diga-me novamente sobre este lugar de onde você vem. Você falou de um mundo inteiro de... edifícios?"

"Sim. De onde eu venho, tudo o que as pessoas fazem é destruir a natureza e construir prédios com ela. Minha tribo destrói as coisas deles e as devolve à natureza."

Terreno Pisoteado | Arte de David Palumbo
Terreno Pisoteado | Arte de David Palumbo

Maklo pareceu duvidoso. Elishta parecia encantada.

Hasal apenas observava. Este garoto está alucinando.

Domri continuava a tagarelar, a adrenalina da transição entre planos e de ser perseguido por Krokt-sabe-o-quê fluindo por seu corpo; seus olhos estavam arregalados como pires enquanto falava com os elfos. "Digo, imagine se cada árvore aqui fosse um prédio de algum tipo e os espaços entre elas fossem becos de paralelepípedos. Isso é Ravnica. É uma bagunça horrível e nós, Gruul, só queremos derrubar tudo, mas os Azorius e todas as outras guildas lutam contra nós. Eles estão todos presos em regras e leis, mas nós temos o Cinturão de Escombros. Aquele é o meu lar. Eu amo as criaturas que vivem lá."

Enquanto Domri tagarelava com os elfos perplexos, começou a imaginar o Cinturão de Escombros e as grandes extensões de ruínas, cavernas e trincheiras deixadas por guerras, feras e outras devastações. Aquilo o puxou e ele sentiu uma força poderosa começar a surgir como um fogo dentro de uma fornalha. Quanto mais Domri pensava nisso, mais a força crescia dentro dele, até que uma represa se rompeu e ele sentiu um tremendo fluxo de mana dominá-lo como uma fera da raiva. Era caótico. Parecia uma tempestade rodopiante de terra emaranhada com árvores e videiras. Domri começou a suar conforme o estresse dessa nova visão o dominava. Era como se ele estivesse enterrado no chão novamente. No fundo da terra, raízes serpenteavam por seu corpo e dissolviam sua carne até que nada restasse além de seus ossos. Então estes também foram esmagados no vazio. Ele podia ouvir vagamente Hasal chamando seu nome e sentia seu corpo físico sendo sacudido como se fosse o de outra pessoa, mas sua consciência estava em outro lugar.

E então, em um solavanco nauseante de poder inacreditável, ele disparou para as Eternidades Cegas mais uma vez.

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As ruas de Ravnica à meia-noite podem ser um lugar confuso, especialmente para um Gruul que nunca pusera os pés tão fundo na cidade. Domri teve que se esgueirar cegamente pelo que pareceram milhas de becos e ruas antes de encontrar um pináculo familiar, um buraco familiar no muro do distrito e uma trilha familiar que levava de volta ao Cinturão de Escombros e ao acampamento de sua tribo.

Floresta | Arte de Yeong-hao Han
Floresta | Arte de Yeong-hao Han

Era tarde da noite quando ele chegou cambaleando, desgrenhado, sem energia, parecendo algum tipo de andante dos esgotos que se arrastou para fora de um cano de drenagem Golgari.

"Aieeee!" Em uma fração de segundo, quatro guerreiros Gruul tinham suas lanças em sua garganta.

"Sou eu, Domri. Tira essa lança da minha frente, Murgul."

"Impossível", disse Murgul. "Você ainda deveria estar na cova."

"Ah, é. Aquilo."

"Você vai esperar aqui até Sabast voltar", rosnou Murgul, cutucando Domri com sua lança.

Nasri sacudiu um pouco de terra que ainda estava no cabelo de Domri. "Acho que ele é um dos Golgaris agora."

"Vou te dizer o que eu sou, Nasri", disse Domri, irritado. "Faminto."

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Sabast chegou ao amanhecer e, depois de acalmar os guerreiros, levou Domri para sua tenda. Pela primeira vez, Domri viu Sabast parecer completamente estupefato.

"Como você chegou aqui? Eu removi a terra da cova e você não estava lá. Que tipo de feitiço você lançou? Como escapou do teste?"

Domri Rade | Arte de Tyler Jacobson
Domri Rade | Arte de Tyler Jacobson

Domri estava em uma situação difícil. Ele sabia que Sabast estava vinculado pela tradição Gruul a acreditar nas velhas lendas e mitos, e o que Domri acabara de passar reduzia tudo aquilo a pedaços. Se descobrissem que ele não passara pelo teste completo, perderia sua posição na guilda. Mas se contasse a Sabast a verdade, muito provavelmente seria expulso como um louco ou um charlatão, ou ambos. De qualquer forma, não parecia bom. O irritante era que Domri sempre sentira que era diferente de todos em sua tribo e agora algo realmente incrível acontecera para provar isso, e ele não podia dizer nada sem se alienar. Aquilo deixava Domri louco como um maaka.

Ele viu o rosto intrigado do velho xamã enquanto este esperava por uma resposta. Domri decidiu que não importava realmente o que dissesse agora. Tudo havia mudado.

"Eu não posso contar o que aconteceu", disse Domri, olhando para os pés.

"O quê?"

"Eu não posso contar porque você não acreditaria em mim de qualquer jeito." Domri sentiu a raiva surgir nele. "Faça o que achar que tem que fazer. Me expulse, o que for, não importa. Ninguém nunca acreditou em mim mesmo." Domri virou-se para sair.

"Eu não vou expulsar você", disse Sabast ao agarrar o braço de Domri. "Sente-se. Vou lhe contar algo que nunca contei a ninguém na tribo. Não existem leis dos Gruul exceto as do mundo selvagem. Percebo que algo aconteceu com você, e esse é o real poder do Sepultamento. Não cabe a mim julgar as forças caóticas da natureza como boas ou más, como fazem as outras guildas; cabe a mim guiar os Gruul, manter-nos em contato com essas forças e manter essas forças vivas dentro de nós. Enquanto você mantiver seu espírito, Domri, você é Gruul, e terá um lugar na fogueira central."

Em um raro fluxo de emoção, Domri abraçou o velho. Sentiu como se um peso tivesse sido tirado dele. Na longa caminhada de volta ao acampamento, Domri não tivera consciência da preocupação que o corroera sobre como sua tribo reagiria — especialmente como Sabast reagiria. Ele deixou a tenda e, ao passar pelos membros de sua tribo que o encaravam, sentiu um sorriso começar a surgir em seu rosto. Finalmente, depois de anos sendo apenas um ninguém, um garoto com afinidade pelos animais selvagens de Ravnica, Domri agora sentia que sabia algo que nenhum outro Gruul poderia saber. Nem Sabast, nem Nikya, nem Borborigmos — ninguém. Ele conhecia outro reino, outro mundo completamente separado deste, e era um mundo com o qual os Gruul só podiam sonhar. Domri sentiu o impulso de fazer outra viagem para o mundo selvagem — o verdadeiro mundo selvagem. Só o pensamento sobre a jornada para o incrível reino da selva fez com que o entusiasmo subisse dentro dele.

Havia uma grande aventura a ser vivida e ele estava pronto para mergulhar de cabeça no que quer que estivesse lá fora.

Reinos Sem Fim | Arte de Cliff Childs
Reinos Sem Fim | Arte de Cliff Childs

Bilagru Virá Buscar Você

Prendedores desceram sobre a cena apenas alguns momentos após o ato ser consumado. Uma multidão já estava se reunindo, pressionando um homem esguio que estava parado sobre um corpo sem vida. O sangue brotava do corpo, o fluxo seguindo as fendas entre as pedras do calçamento antes de formar uma poça ao redor das finas botas do homem. O homem não fez esforço algum para se mover, para correr. Ele permaneceu ali, curvado e desgrenhado, mas freneticamente alerta. Seus olhos dardejavam de um lado para outro, percorrendo os rostos da multidão crescente, e a ponta de sua espada seguia seu olhar instável em uma série de movimentos espasmódicos.

Os prendedores abriram caminho pela multidão, e seus chamados por ordem elevaram-se acima dos gritos de horror e raiva. Um prendedor parecia estar lendo algo, mas o homem estava alheio em sua análise dos espectadores. Então seu maxilar explodiu de dor. A espada voou de sua mão. Ele desabou sobre o corpo, estendendo as mãos desesperadamente para afastar um segundo golpe.

"Symond Halm, eu ordenei que soltasse sua arma e se submetesse à detenção de acordo com a lei de detenção número um, um, quatro."

Symond abriu os olhos ao ouvir a voz, e um prendedor de rosto azedo e postura profissional estava sobre ele, com um bastão de choque em seu punho blindado. Symond subitamente reconheceu o gosto de sangue em sua boca, mas limitou-se a encarar o prendedor e sorrir.

Um segundo prendedor o arrancou do chão, e Symond viu-se sendo conduzido sob a guarda de meia dúzia de prendedores. Outros oficiais Azorius fervilhavam pelo local. Curiosos alinhavam-se na rua para vê-lo ser marchado para o Complexo de Detenção. Em meio ao movimento da multidão, uma única figura imóvel chamou sua atenção. O detido virou a cabeça. Montado em um cavalo estava um homem envolto em um manto que escondia uma armadura de placas com filigranas de ouro. O rosto do cavaleiro estava obscurecido por um elmo, mas o visor ciclópico era inconfundivelmente Orzhov. O olhar de Symond fixou-se no cavaleiro até dobrarem a esquina. Ouviu a palavra "devedor" ecoar atrás dele, embora não pudesse ter certeza.

"Mil agradecimentos por concordar em ver-me, generosíssima Ilona", eu disse, retirando meu chapéu enquanto fazia uma reverência teatral. A potentada Orzhov ergueu uma sobrancelha. Curvei-me ainda mais, não querendo ofender uma mulher de status tão elevado. Ainda nenhuma resposta verbal, e senti-me agudamente constrangido. Fiquei de pé, apertando meu chapéu contra o peito, sentindo-me subitamente desajeitado.

Ilona sentava-se sobre uma cadeira de encosto alto luxuosamente almofadada, no topo de um estrado elevado a uma dúzia de degraus do chão. Ela era emoldurada por um dos muitos arcos enormes que se erguiam atrás dela, e eu sabia que estava fora de lugar ali. Um leve sorriso surgiu no canto da boca da chefona. Ela cruzou as mãos no colo e olhou para mim por um momento de uma maneira que me lembrou um gato. "Suas peças me divertem, Symond."

"Vossa senhoria é muito gentil", eu disse, recuperando a compostura. "Não consigo pensar em elogio maior do que saber que minhas palavras lhe agradam."

O sorriso de Ilona cresceu. Ela levantou-se e desceu as escadas, parando no último degrau, de onde olhou para mim de cima para baixo. "Diga agora. O que posso fazer por você?"

"Vim até vossa senhoria, Ilona, a mais sincera patrona das artes", eu disse, colocando meu chapéu com um gesto pomposo, "porque quero encenar uma peça. Veja bem, escrevi uma peça sobre o conto épico de Zandra, a criança que liderou a Legião."

"Um conto dramático?"

"Um conto emocionante de coragem e redenção."

"Você escreve comédias, Symond."

"Oh, mas esta é minha obra-prima."

"Entendo agora. Você perdeu seus financiadores."

"Faltou-lhes visão. Se vossa senhoria pudesse encontrar em seu coração..."

"Você precisa de moedas. Eu entendo." Ela virou-se e chamou em direção à sua cadeira vazia: "Lorde Kazmyr!" Uma pequena figura cinzenta, adornada com uma máscara de ouro e correntes de ouro combinando, emergiu de trás da cadeira. Lorde Kazmyr era o trul de Ilona. O nome que ela escolheu para seu trul vinculado revelava o tino para o teatral da chefona Orzhov; um atributo que interpretei como muito promissor na época.

"Traga um contrato", Ilona ordenou. "Este homem, Symond Halm, deseja pegar dinheiro emprestado." Lorde Kazmyr abriu um par de asas de couro e voou para longe. "Suas três peças anteriores foram sucessos de crítica e financeiro." Assenti, banhando-me por um momento em seu reconhecimento.

O trul retornou alguns instantes depois com um rolo de pergaminho, uma pena e um frasco de tinta. Peguei a pena. "Vossa senhoria tem sido muito graciosa, Ilona", eu disse.

"Isto é um investimento. Você está contraindo uma dívida. Comigo." Ela estendeu o frasco de tinta. "Pretendo cobrar, e servidão não contará como moeda desta vez." Mergulhei a pena e assinei.

Lorde Kazmyr acompanhou-me até a saída e, enquanto a porta se fechava atrás de mim, ouvi o trul sussurrar: "Bilagru virá buscar você."

A porta da cela bateu e o som de uma fechadura travando ressoou pela câmara de pedra. Era uma cela pequena com paredes espessas. Três janelas circulares foram cortadas na parede externa em um padrão vertical, cada uma com uma grade de ferro entrelaçado anulando qualquer plano de fuga. Além das grades, podiam-se distinguir segmentos do horizonte infinito de Ravnica. Symond testou a força do ferro. Não cedeu. Voltou-se para a porta da cela e testou as barras também. Sólidas e fortes. Ele forçou contra as barras para espiar o corredor, que era ladeado dos dois lados por celas presumivelmente como a dele. E guardas. Guardas armados.

Symond sentou-se em um canto de sua cela, com os olhos fixos na sombra distorcida do padrão de grade que se estendia pelo chão conforme a luz entrava pela janela mais baixa. Estava perto do pôr do sol. Ele estava seguro.

Minha peça exigia realismo. Os soldados usavam armaduras funcionais testadas em combate. Todos os figurinos, insisti, eram autênticos para o período.

E depois havia o palco. Dois magos Izzet projetaram e construíram um palco onde, para a cena final, o chão desapareceria, deixando apenas a ponte onde Zandra duelaria contra o Demônio do Pináculo.

Era a minha visão.

As cortinas abriram-se na noite de estreia, e Zandra ocupou o palco com seus legionários.

Espiei a plateia dos bastidores por um momento, esperando avistar Ilona. Para meu horror, foi fácil demais encontrá-la. Apenas um quarto dos assentos estava ocupado, mas lá, sentada em seu assento no balcão, estava Ilona.

Tornei-me subitamente ciente de quão caro cada detalhe fora e como, em última instância, eu era o responsável. Eu estava em dívida.

Eu tinha que sair de lá. Parecia que o público só queria uma comédia.

Apressei-me a encher uma bolsa com comida e roupas e pendurei uma espada no meu cinto. Silenciosamente, abri a porta que levava à rua e saí.

"Bilagru virá buscar você", veio uma voz acima de mim. Virei-me para ver o trul, Lorde Kazmyr, empoleirado em uma saliência da alvenaria. Novamente ele falou: "Bilagru virá buscar você", mas acrescentou a palavra "devedor". Ele apontou para mim e eu fugi.

A escuridão que permeava a cela era espessa. Quando Symond acordou, tateou cegamente com os braços estendidos, sondando a escuridão em busca de algo, ou alguém, que pudesse estar à espreita. Rastejou pelo espaço exíguo de seus aposentos de mãos e joelhos. "Ilona ficaria divertida com isso." Uma risada curta e aguda escapou de sua boca.

A cela começou a tomar forma à medida que seus olhos se ajustavam, confirmando que ele estava, de fato, sozinho. É claro que estava. Symond levantou-se. Com confiança renovada, percorreu a jornada de três passos e meio pelo seu novo domínio. Seu passo final, no entanto, foi pontuado por um som áspero de raspagem. Symond saltou para trás. Então se abaixou e pegou uma moeda. Embora não pudesse vê-la, sentiu o disco em relevo e os raios simétricos do sol da guilda Orzhov.

Um brilho bruxuleante distraiu Symond por um momento. A luz vinha das janelas redondas. Lentamente, aproximou-se delas, agachando-se para espiar pela janela mais baixa. Viu uma forma escura movendo-se, silhuetada contra o brilho. A forma virou-se. Lorde Kazmyr estava olhando de volta para ele. Então o trul falou: "Bilagru virá buscar você."

Symond ficou paralisado de medo.

Uma comoção além das barras de sua cela quebrou sua paralisia. Ele girou bruscamente. Guardas gritavam ordens. O estalo azul brilhante de feitiços Azorius piscava, iluminando uma cena de pânico apenas por breves momentos. Mais guardas passaram correndo pela cela de Symond. Os outros prisioneiros somavam seus gritos ao clamor.

Havia gritos e o implacável e imperdoável: "Bilagru virá buscar você."

Eu corri, e continuei correndo. Meus pulmões ardiam. Minha cabeça latejava. Mas segui em frente, esquivando-me pelos becos e ruas laterais que me eram tão familiares.

Eu só precisava fugir. Para longe. Tinha que ir para um lugar onde Bilagru não pudesse me encontrar. Nem Ilona. Nem todos os Orzhov, por sinal.

Dobrei uma esquina em disparada e, antes que pudesse mudar de curso, colidi com um mensageiro. Ambos tombamos no chão enquanto estojos de pergaminho se espalhavam pela rua. Levantando-me apressadamente, eu estava prestes a correr quando notei que a pessoa era um vedalken. Normalmente, isso não chamaria minha atenção. No entanto, quando olhei ao redor, reconheci a área. Este era o Décimo Distrito Azorius. Em um súbito desabrochar de inspiração, vi minha fuga. Eu sabia o lugar mais seguro — o lugar mais distante do alcance de qualquer mão Orzhov — e como chegar lá.

O vedalken ainda estava sentado na rua, atordoado. Estendi a mão para ajudá-lo a levantar e, quando ele se ergueu, saquei minha espada e a cravei em seu peito. Ele tentou gritar, mas sua voz falhou e ele desabou, sem vida, contra mim. Deixei seu corpo cair na rua e esperei que os prendedores me levassem embora.

Não havia nada atrás do que se esconder, então Symond pressionou-se contra a parede oposta de sua cela, com os olhos fechados sendo sua única defesa. Tudo estava silencioso. Passos pesados tornavam-se mais altos a cada pisada. Então pararam. Uma chave deslizou no lugar e girou. A fechadura soltou-se. Symond abriu os olhos para ver a porta abrir. Bilagru, blindado e salpicado de sangue, preenchia o batente. Seu machado de lâmina dupla estava viscoso de sangue. O gigante abaixou-se para olhar dentro da cela. Quando seus olhos encontraram Symond, viu o homem encolhido desabar no chão.

"Symond Halm", ele disse ao entrar. "Você é um devedor de Ilona dos Orzhov."

Ele ergueu o machado. "Dívidas devem ser pagas."

A Venda Difícil

Bartek colocou o último dos pesados caixotes de madeira na carroça com um grunhido. Ele se encostou na parede do armazém, respirando pesadamente, com o suor escorrendo pelo rosto. O sol já estava alto, mais do que ele esperava, e já estava ficando quente.

Depois de recuperar o fôlego, ele jogou a pesada lona sobre as caixas e a amarrou no lugar.

O Chefe Zifka, também suando apesar de ter ficado sentado durante todo o carregamento, deu sua volta de inspeção, avaliando o trabalho de Bartek. Como de costume, ele assentiu em aprovação. Bartek carregava para Zifka há muito tempo e sabia o que o mercador queria. Uma das coisas que Zifka queria era que Bartek ficasse calado sobre a eventual divergência entre a etiqueta em um caixote e o peso e o som de seu conteúdo. Bartek era bom em ficar calado. Zifka era bom em pagá-lo. Eles se davam bem.

Após um último puxão nas cordas, Zifka assentiu novamente.

"Obrigado pela sua ajuda", disse ele, como sempre fazia, apertando a mão do jovem. Em sua palma estava o peso frio de uma moeda. Apenas o guardião da lei mais zeloso ou inexperiente iria atrás do trabalho diarista não tributado que mantinha o distrito do mercado funcionando, mas nunca fazia mal ser discreto.

Ele relanceou para a moeda enquanto a guardava. Era uma peça de um zino amassada, mais do que justa por algumas horas de trabalho pesado. Isso elevava a riqueza terrena de Bartek para seis zinos — quatro em sua bolsa de moedas mais um em cada bota — além de uns oitenta zibs e as roupas do corpo. Ele começou a caminhar, com um gingado no passo. Engraçado como uma bolsa de moedas pesada fazia você se sentir mais leve.

A Rua do Estanho estava intensamente iluminada, desperta com os sons e cheiros do mercado no que agora era inegavelmente pleno dia. Mascatas gritavam sobre chapéus e poções e uma dúzia de outras coisas; os aromas de peixe, frutas e queijo misturavam-se livre e estranhamente, e um recrutador Boros oferecia boas moedas a jovens fortes — "Exatamente como este rapaz robusto!", disse ele enquanto Bartek passava — que estivessem dispostos a se juntar aos Wojeks. Bartek apressou o passo. Ele sabia o que acontecia com "jovens fortes" que paravam naquelas bancas de recrutamento se por acaso tivessem mandados de prisão pendentes. Ele se perguntava se as bancas de recrutamento serviam apenas para isso.

"Joias!", gritou um mercador, um homem esguio com olhos de doninha. "Você aí — um rapaz alto como você deve ter uma amiga para impressionar."

Bartek quase continuou andando. Mas o que era o dinheiro se você não pudesse gastá-lo? Ele aproximou-se lateralmente, fingindo desinteresse, e examinou as mercadorias do homem. A maior parte daquelas coisas estava muito além de sua faixa de preço, mas seus olhos detiveram-se em um fino ornamento de metal, de fabricação barata, mas de formato elegante, adequado para pendurar em uma tiara ou colar. Ele apontou para ele.

"Quanto?", perguntou ele.

O mercador o avaliou de cima a baixo com aqueles olhos de doninha. "Ela é sua namorada?"

Bartek balançou a cabeça.

"Quem sou eu para ficar no caminho do amor jovem?", disse o homem. Deu um suspiro teatral. "Um zino e é seu."

Bartek franziu a testa. "Eu lhe dou oitenta zibs", disse ele. "É bonito e tudo, mas eu ainda tenho que comer."

O homem franziu a testa de volta. "Sou um romântico, amigo, não uma instituição de caridade. Noventa zibs. É o melhor que posso fazer."

"Oitenta", disse Bartek. "Por favor."

O mercador franziu os lábios. "Tudo bem", disse ele. "Oitenta zibs, e você diz a ela que comprou na Imrich's na Rua do Estanho."

Bartek sorriu. "Fechado." Ele pescou oitenta zibs de sua bolsa de moedas e os entregou. Seis zinos cravados, pensou ele. Guardou o pequeno amuleto no bolso.

"Isso é para sua namorada?", perguntou uma voz atrás dele.

Ele se virou para ver Nico, um garotinho ladrão que parecia pensar que eles eram amigos. Bartek fez uma careta e manteve a mão na bolsa de moedas.

"Ela não é minha namorada", resmungou ele, e começou a caminhar. "Você não deveria estar na cadeia ou algo assim?"

Nico manteve o passo com ele, dando três passos para cada dois de Bartek. Ele realmente deveria estar na cadeia, por roubo e vandalismo, mas isso era verdade para muitos dos amigos de Bartek.

"Ela é bonita, no entanto, hein?", disse Nico.

"Você não saberia o que fazer com ela", disse Bartek.

Sentia um pouco de nojo ao falar de uma amiga assim, mas estava falando a língua de Nico. Fale com um bandido como um bandido, sua mãe lhe dissera uma vez, e com uma dama como um cavalheiro.

Nico deu de ombros. "Aposto que ela saberia o que fazer comigo."

O rosto de Bartek esquentou.

"Cale a boca", disse ele. "Ou eu a calarei para você."

Nico correu à frente dele e entrou em seu caminho. Bartek teria passado por cima, mas algo no rosto do garoto o fez parar. Parecia estranhamente com preocupação genuína.

"Você gosta mesmo dela, não gosta?", disse Nico. "Você vai se decepcionar. Ela é uma balconista, Bartek. É o trabalho dela flertar com você, fazer você se sentir especial. Ela só quer o seu dinheiro."

Desta vez Bartek empurrou Nico para fora de seu caminho.

"Ela sabe que eu não tenho dinheiro nenhum", disse ele, afastando-se.

"Aposto que ela preferia ter seus oitenta zibs do que sua joia estúpida", disse Nico, mas não o seguiu.

Depois de muitas curvas e esquinas, esquivando-se por becos e passeando por vias principais, ele se viu em um ambiente totalmente mais confortável. As pessoas mantinham os olhos no chão por aqui, e já fazia dez minutos que ele não via um prendedor ou um Wojek. Beco da Perdição. Sua casa ficava na extremidade oposta, mas ele tinha uma parada a fazer primeiro.

A pequena banca despretensiosa estava escondida de lado, fácil de perder se você não soubesse precisamente onde ficava. Ainda assim, era um lugarzinho acolhedor e sempre tinha uma seleção interessante... mas não era por isso que Bartek passava por lá todos os dias.

O nome dela era Andra, e ela era bonita, falava bem e era amigável. Ela parecia montar uma roupa diferente a cada dia com peças sobressalentes — mas sempre de alguma forma elegante, e nunca excessivamente modesta.

Enquanto ele se aproximava, ela conversava animadamente com uma mulher de manto, exibindo a encadernação de um livro antigo particularmente ornamentado. Sem interromper seu discurso de vendas, ela encontrou os olhos de Bartek por cima do ombro da mulher e lançou-lhe um sorriso como o sol do meio-dia. Ele engoliu seco.

Eventualmente, a mulher de manto decidiu-se e desembolsou mais dinheiro do que Bartek ganhava em um mês por algo que ela não podia comer, vestir ou usar para lutar. Seis zinos cravados, pensou ele novamente.

A mulher de manto afastou-se, e Andra sorriu para ele.

"Bartek!", disse Andra. "Eu estava começando a ficar preocupada."

"Oh", disse ele. "Desculpe."

Ela riu dele.

"Você não precisa passar aqui todo dia, sabe. Você é um cara ocupado. Eu entenderia."

"Claro que preciso", disse ele. Bateu no peito. "Sou seu melhor cliente."

"Você é constante, pelo menos", disse ela.

Era uma velha piada. Ele passava por lá quase todo dia, mas quase nunca comprava nada. Ele geralmente tentava passar enquanto ela ainda estava arrumando as coisas, para tornar menos constrangedor o fato de não comprar nada. A simples verdade era que ela não vendia muita coisa que ele pudesse pagar. Andra sabia disso e não parecia ter pressa em enxotá-lo.

"Tenho uma coisa para você", disse ele.

"Que engraçado", disse ela. "Eu ia dizer a mesma coisa. Você primeiro."

Cuidadosamente, ele retirou o pequeno ornamento e o estendeu. Andra sorriu e o pegou, seus dedos roçando os dele. Ela o ergueu e o examinou à luz da manhã.

"Materiais baratos, mas acabamento bonito", disse ela. "Alguém amou esta pecinha de estanho."

"Você gostou?", disse ele.

"É lindo", disse ela. "Acho que não posso lhe dar muito por ele, no entanto."

Ele corou.

"É... quero dizer, eu comprei para você", gaguejou ele. "Como um presente. Em um lugar chamado Imrich's ou algo assim, lá na Rua do Estanho. Ele não quis me vender a menos que eu prometesse dizer onde comprei."

"Você comprou isso para mim?", perguntou ela.

"É", disse ele. "Acho que sim. Simplesmente... me fez pensar em você."

"Comum, mas bem arrumado?", disse ela, arqueando uma sobrancelha.

Ele corou novamente, e ela riu.

"Bartek, é lindo", disse ela sinceramente. "Obrigada."

Ela afastou o cabelo, encontrou um lugar vazio em sua tiara e enganchou o ornamento nela.

"Como ficou?", perguntou ela.

"Lindo", disse ele. "Combina perfeitamente."

Ela revirou os olhos para ele. Quando ele lhe fazia elogios, ela gostava de fingir que ele estava brincando, ou exagerando, ou apenas tentando bajulá-la. Às vezes isso o chateava. Desta vez, ele estava de bom humor demais.

"Você disse que tinha uma coisa para mim?", disse ele.

"Oh", disse Andra. "Tenho, mas receio que não seja um presente."

"Eu não estava esperando um", disse ele.

Ela puxou um embrulho envolto em pano de debaixo do balcão.

"Estive guardando este para você", disse ela. "Sei que você está apertado, mas consegui isto barato e queria lhe dar uma chance. Simplesmente... me fez pensar em você."

Ela desenrolou o embrulho e estendeu uma adaga primorosamente fabricada com uma lâmina suavemente curvada. O metal era escuro, quase preto, e finamente polido. Era uma lâmina magnífica, e exatamente do tamanho certo — pequena o suficiente para ser usada abertamente sem parecer um valentão, grande o suficiente para deixar as pessoas apenas um pouquinho nervosas.

O coração dele afundou. Não havia como ele pagar por algo assim.

"Cinco zinos", disse ela. "Uma oferta especial para meu melhor cliente."

"Você está falando sério?", disse ele. "Deve valer o dobro disso."

"Como eu disse, consegui barato. E eu realmente acho que ficaria bem em você."

Ela só quer o seu dinheiro, disse a voz de Nico em sua cabeça. Mas ela provavelmente conseguiria doze zinos por aquilo se fosse paciente. Era muito dinheiro para abrir mão apenas para depená-lo pessoalmente.

Isso deixava uma possibilidade: ela realmente estava fazendo um negócio de amiga. Ele engoliu seco. Seis zinos cravados.

"Experimente", disse ela, estendendo-a para ele.

Ele pegou a lâmina e a guardou cuidadosamente no cinto. Parecia boa — pesada, mas não demais. Praticou um saque. O metal era liso, e a curva da lâmina era suave o suficiente para não atrapalhar o saque. Colocou a adaga de volta no cinto.

"Como ficou?", perguntou ele.

"Elegante", disse ela. "Robusto. Um pouco perigoso. Combina perfeitamente."

Ele revirou os olhos.

"Isso é forçar um pouco a barra, você não acha?"

"Bartek, estou falando sério", disse ela. "Fica muito bem em você."

Ele corou novamente.

"Fechado", disse ele. "Cinco zinos. Vou ficar quebrado, mas vou ficar bonito fazendo isso."

Ele pescou um zino de sua bota direita e esvaziou os quatro de sua bolsa de moedas sobre o balcão. Sobrou um zino, pensou ele.

Ela varreu as moedas em um movimento suave e sorriu.

"Obrigado", disse ele. "Pode não ser um presente, mas você não precisava fazer isso."

"Não", disse ela. "Eu quis."

Ele sorriu.

"É melhor eu ir", disse ele. "Muito gingado importante para fazer."

"Oh sim", disse ela. "Você é um cara ocupado. Eu entendo."

Ele lançou-lhe um último sorriso e dirigiu-se para casa. E se havia um pouco de gingado em seu passo, quem poderia culpá-lo?

Era de manhã cedo, o amanhecer rastejando pelo beco enquanto o sol vencia os edifícios circundantes. Andra assobiava enquanto montava sua banca, atenta à chegada de Bartek.

Ela mal havia colocado as coisas em ordem quando avistou sua estrutura alta movendo-se pela rala multidão matinal. Ele estava no horário hoje.

Ele tinha um grande calombo roxo acima de um olho, e a adaga finamente trabalhada não estava em lugar nenhum. Parecia que ele ia passar apressado, mas ela o avistou e acenou, e ele caminhou até a pequena banca.

"Bartek! O que aconteceu com você?", perguntou ela. "Você está bem?"

"Vou ficar bem", disse ele. Parecia exausto. "Uns caras pularam em mim ontem à noite no caminho para o trabalho. Bateram na minha cabeça antes que eu pudesse vê-los. Não posso dizer que ganharam muito pelo esforço, mas levaram minha adaga nova."

"Sinto muito, Bartek." Ela franziu a testa. "Escute, eu geralmente não faço isso, mas se você quiser seus cinco zinos de volta..."

Ele balançou a cabeça.

"Não é sua culpa", disse ele. "Fui eu quem a perdeu."

"Sinto muito", disse ela. Ele assentiu cansado.

"Vou ficar bem", disse ele. "Você tome cuidado de quem compra, ok? Acho que talvez aquela adaga pudesse ter sido roubada, e esses caras vieram pegá-la de volta. Poderia ter sido você que eles espancaram."

"Você é um doce", disse ela. "Vou tomar cuidado."

"Vou dormir um pouco para ver se isso passa", disse ele. "Tenha um bom dia, ok?"

"Você também", disse ela.

Andra o observou partir. Ele era apenas um garoto, e terrivelmente gentil para um ex-bandido.

Ainda não havia clientes de fato, então ela se sentou atrás do balcão. Pegou papel, tinta e pena e começou uma mensagem altamente codificada para seus superiores.

O item está agora em posse de terceiros. Entrar em contato se desejar mais detalhes.

Ela não sabia se a faca era uma arma de crime, mercadoria roubada ou qualquer outra coisa, e não queria saber. Tudo o que sabia era que a Casa Dimir queria que ela fosse vendida a alguém em particular, e não queriam nenhum vínculo entre os novos proprietários e ela.

O mensageiro sobreviveu, mas permanece alheio ao seu papel na entrega.

Era um truque favorito dela: vender a alguém um item ilícito e depois providenciar para que ele fosse roubado pelos verdadeiros compradores. Isso quebrava a trilha que levava a ela e, além disso, ela recebia duas vezes pela mesma mercadoria. Geralmente, o mensageiro não se dava bem no negócio, mas desta vez ela pedira ao comprador para deixar o garoto vivo. Ficara aliviada ao ver o rosto de Bartek, mesmo machucado como estava.

Lucro da venda primária: 20 zinos. Lucro da venda secundária: 5 zinos. Valor de mercadorias adicionais adquiridas durante a transação secundária:

Ela girou o pequeno ornamento de tiara nos dedos e sorriu.

irrisório.

Ela soprou a tinta para secar, dobrou a carta e a guardou.

Ele realmente era um garoto doce.

Atrás do Sol Negro

A vela oscilou.

"Eu sou um portal para a vida", disse o clérigo. A luz dançante adicionava uma certa gravidade numinosa à declaração.

O clérigo sorriu diante da reação inconsciente que deve ter passado pelo meu rosto.

"A maioria me lança um olhar estranho quando digo isso. Talvez seja porque visto as roupas de um Orzhov e eles acreditam na calúnia grotesca perpetuada sobre nossa guilda. Não somos todos egoístas e gananciosos." O clérigo suspirou. "Os ignorantes sempre presumem o pior, suponho. As pessoas são facilmente influenciadas por paixões irracionais e astúcia intencionada, não concorda?"

"Suponho que sim", eu disse. "Mas você tem que admitir, os Orzhov não são conhecidos por jogar limpo."

O clérigo recostou-se em sua cadeira, virou as palmas das mãos para cima e deu de ombros. "Colocamos tudo por escrito. Está tudo lá para quem quiser ver. As pessoas simplesmente não leem as letras miúdas antes de assinar."

Pude sentir a atitude defensiva do clérigo e me culpei por deixar escapar meu preconceito pessoal. Já fora difícil o suficiente encontrar evidências desta ordem, quanto mais ter de fato concedida uma audiência com um de seus membros. Eu sentia anos de trabalho começando a desmoronar em minhas mãos. Teria que engolir minhas opiniões e meu orgulho se quisesse chegar a algum lugar com este acesso sem precedentes.

"Muito verdade. As pessoas estão focadas no que querem e raramente têm paciência para esperar e avaliar antes de agir segundo seus desejos."

Isso pareceu trazer o clérigo de volta.

"Poucos conseguem ver a verdade nisso e fico feliz que você veja. Minha escolha sobre revelar nossa ordem depende de você ver com a mente aberta." Ele despejou vinho em um cálice dourado e me ofereceu um pouco, mas recusei educadamente. "Os Orzhov valorizam muito a paciência. Suas virtudes nos são ensinadas assim que iniciamos nosso serviço à guilda; a tarefa para a qual fomos escolhidos exige não apenas paciência, mas também dedicação, confiança e altruísmo. Nossa tarefa, nosso chamado, é dar nossas vidas pelo Sindicato. Detemos algo além do mero valor monetário para a guilda. Somos um portal através do qual algo maior que nós mesmos pode emergir."

Agora estávamos chegando ao ponto. Eu sempre fora fascinado por como a crença devota podia sobrepujar o desejo inerente de preservar a vida — nosso egoísmo instintivo. O wojek Boros que se sacrifica para que inocentes possam viver sempre representou um mistério para mim, um vislumbre de outro conjunto de padrões que corre profundamente em nosso interior, operando abaixo de nossas mentes críticas e egocêntricas. Parecia apropriado para Boros e Selesnya exibirem tal comportamento, mas os Orzhov? Os boatos me pareciam estranhos para a guilda dos negócios.

Agora, eu descobriria sobre este culto de mistério dentro das muralhas do Sindicato e documentaria um momento crítico no tempo deste mundo enclausurado, envolto em mitos e especulações.

O clérigo pousou seu cálice e levantou-se.

"Caminhe comigo até o santuário."

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Entramos em uma câmara de teto alto que cheirava a incenso amadeirado e madeira de tocha. A túnica do clérigo fluía ao redor dele e dos pesados discos de ouro que pendiam de seu colar como fumaça espessa.

Na luz bruxuleante das tochas, pude distinguir um grande símbolo Orzhov no chão, feito com grandes ladrilhos de pedra. O clérigo ajoelhou-se no círculo e fez sinal para que eu me sentasse em uma pequena cadeira sem braços a certa distância dele. Assim que saquei minha pena e papel, ele começou, sua voz ecoando na escuridão.

"Nossa ordem representa os ideais mais puros dos Orzhov, e é por isso que tão poucos de nós são escolhidos. É um fardo pesado demais para a maioria, mas descobri que, após ser escolhido, minha vida foi imbuída de um grande senso de propósito. Até hoje, cumprir esse propósito tem sido minha maior ambição."

Naquele momento, dois sacerdotes de túnica entraram na luz das tochas como fantasmas silenciosos. Um colocou velas diante do clérigo e as acendeu com longos palitos de fósforo. O outro sacerdote colocou várias tigelas diante do clérigo que continham algo pesado. Pude notar pelo baque surdo que faziam nos ladrilhos de pedra. Então os sacerdotes partiram tão silenciosamente quanto vieram.

Das dobras de sua túnica, o clérigo retirou um tubo de vidro tampado em ambas as extremidades que pendia de uma corrente de ouro. Dentro do tubo, redemoinhava uma fumaça branca turbulenta que parecia de alguma forma viva.

"Este é o Pacto de Morte", disse ele, enquanto contemplava o tubo, sua luz fraca brincando em suas feições como a luz solar através da água. O clérigo olhava para suas profundezas, hipnotizado. Sua luminescência sinistra tornava seu rosto já pálido impossivelmente mais pálido, o que servia para exagerar a escuridão de seus olhos de obsidiana; ele parecia algum espectro de marfim enquanto ponderava as profundezas redemoinhantes. "É o nome de nossa sagrada ordem. Difícil imaginar que dentro deste pequeno cilindro resida tal poder magnífico."

O clérigo desenganchou o cilindro esguio de sua corrente e reverentemente colocou o tubo diante de si. Ele então removeu as tampas das tigelas douradas e esticou a mão para espalhar punhados de moedas ao seu redor no chão. O som das moedas ecoando por todo o salão gigante me fez sentir como se estivesse em algum estranho e enorme carrilhão de vento. Senti uma pontada de apreensão primal percorrer meu corpo e inundar meus membros.

De que tipo de poder ele estava falando? Eu estava em perigo?

Instintivamente, afastei-me do clérigo e resisti ao impulso de fugir da sala. Respirei fundo enquanto ele continuava, registrando tudo com minha pena, apesar do meu medo. Os instintos de ser um escriba são difíceis de reprimir: conhecimento a qualquer preço.

Eu me perguntava que significado, se houver, as moedas tinham, mas não ousei quebrar o ritual com uma pergunta. Parecia rude. Sacrílego. Anotei cada detalhe que pude enquanto o clérigo fazia mais gestos e proferia palavras. Seu transe aprofundava-se lentamente; o som do raspar da minha pena no pergaminho parecia uma intrusão, mas eu tinha mais medo de omitir qualquer detalhe.

Então ele ficou imóvel.

Após um longo momento apenas com o som das tochas queimando, o clérigo sussurrou.

"Estou pronto."

Então ele desatarraxou a tampa do cilindro de vidro.

Minha mente corria com antecipação. Pronto para quê? O que ia acontecer? Que segredos eu estava prestes a presenciar?

Pareceu um truque da mente a princípio, mas então...

A fumaça turbulenta dentro do cilindro de vidro serpenteou hesitantemente para fora como algo senciente. O clérigo respirava profundamente enquanto a fumaça branca buscava seu rosto. Ela tocou o peito do clérigo; ele estremeceu reflexivamente, mas manteve os olhos fechados enquanto ela circulava seu pescoço. Conforme a fumaça se aproximava de seu rosto, subindo em direção ao nariz do clérigo, pude distinguir um fio negro como azeviche dentro dela, que parecia um pedaço de borracha escorregadio brilhando na luz das tochas. A oração murmurada do clérigo cessou quando ele deu uma respiração profunda pelo nariz. Como se ouvisse a inalação, a fumaça lançou-se para dentro das narinas do clérigo e desapareceu. O clérigo fez um som de engasgo e desabou para frente.

Eu me levantei de um salto, mas ao fazê-lo, minha manga enganchou no meu tinteiro e o enviou tinindo pelo chão de pedra. A tinta preta espalhou-se como sangue escuro sob a luz das tochas. Corri para o lado do clérigo enquanto ele se contorcia no chão e o virei. Ele arranhava seu colar dourado. Seu rosto transformara-se em um mosaico manchado de veias arroxeadas e carne machucada. Gritei por ajuda. Tudo o que ouvi foram as reverberações pelo grande salão.

Então fumaça preta começou a sair da boca do clérigo. Lembrou-me instantaneamente de um incêndio químico Izzet que eu presenciara alguns anos atrás.

A cabeça e o pescoço do clérigo arquearam-se para trás enquanto ele ficava instantaneamente rígido. A fumaça preta jorrava de seu nariz e ouvidos também e começou a se formar diante de mim enquanto eu recuava e levava minha manga ao rosto.

O corpo do clérigo encolheu e dessecou diante de meus olhos enquanto um espesso vapor branco emanava dele e coalescia em uma forma humanoide. Braços, pernas, cabeça e torso reuniram-se diante de mim na forma sólida de uma mulher majestosa com pele como alabastro. A fumaça preta formou duas grandes asas atrás dela e fumaça ondulante envolveu-a como pano vivo. Moedas de ouro e seus recipientes dourados tornaram-se poças de metal líquido que formaram uma armadura cintilante e o arco maciço de uma foice. Tudo isso se movia diante de meus olhos incrédulos em um ato arcano de criação, mas tudo o que eu podia fazer era fitar o rosto dessa criatura sobrenatural que me observava com um olhar impassível, porém intensamente curioso.

Ela estendeu a mão, seus dedos pálidos fechando-se ao redor do cabo de ébano da grande foice precisamente quando os últimos vestígios de fumaça preta formavam a empunhadura.

O anjo flexionou os dedos da mão livre como que para testar sua eficácia, então olhou para sua armadura reluzente e para o ambiente. Eu estava paralisado. Não queria me mover, para não incorrer em sua ira, mas também não queria ficar.

Ela flexionou suas asas de penas de corvo e então virou-se para me encarar.

"Você. Escriba Orzhov. Escreva isto." Mesmo sendo pouco acima de um sussurro, sua voz cortava o ar como uma lâmina. Após um momento de hesitação, apanhei meu pergaminho, pena e o tinteiro tombado. Felizmente, restavam algumas gotas no reservatório.

"Vim dos salões fantasmagóricos do Obzedat com uma mensagem para Teysa Karlov. Há mais no labirinto do que sabíamos. Teysa Karlov deve encontrar a rota correta e completar o labirinto a todo custo."